El Glyptodón: o Tatu gigante de Buenos Aires

5 maio

Dessa estrada que vai do nada ao nada/ São livros e o luar contra a cultura”.( Caetano Veloso em Livros)

Siempre imaginé que el Paraíso sería algún tipo de biblioteca”. ( Jorge Luís Borges)

O Tatu gigante de Buenos Aires

Similarmente ao seu antepassado paleolítico de nome homônimo – um tatu gigante que habitava a região da Argentina e Uruguai – a livraria El Glyptódon está ameaçada de extinção. Assim como a enorme casca do animal, que por anos foi a casa de muitos humanos pré-históricos, a livraria El Gliptodón também é morada de entidades submetidas as forças da evolução. Situada nas entranhas corcundas de um edifício comercial da rua Ayacucho , esquina com Viamonte, em frente ao Palácio das Águas, uma das construções mais impressionantes de Buenos Aires, a Livraria guarda dentro de si o registro histórico de uma Argentina que já não se vê se não pelos retratos em sépia.

Uma miragem nostálgica incrustada em uma capital que aos poucos se rende ao fast food intelectual, a livraria resiste ao tempo graças ao esforço de seu dono Alejandro que, entre um cigarro e outro, explica a geologia das enormes estantes que se acotovelam umas sobre as outras no pequeno conjugado que é loja.–  “Há quanto tempo estão abertos?”, lhe pergunto. –   “Para mim vinte e quatro anos, para você há dois minutos”, me responde. 

Um inventário das idéias de várias eras, resvalando umas nas outras, convivem em prateleiras empoeiradas clássicos e anônimos que vão de Voltaire a Gore Vidal, de Saint Exupéry a livros de arte de Carlos Afonso, das revistas mundanas para donas de casas da década de cinqüenta a manifestos peronistas, numa verdadeira assembléia intelectual, ecumênica e multilíngüe capaz de fazer salivar os aficionados. Há de tudo, de livros de história á fotografia, de política á economia, literatura argentina e estrangeira, além dos livros raros. As primeiras edições ficam em uma pequena capela adjacente, curiosamente hospedados ao lado da estante de livros eróticos.

Felizmente, Buenos Aires está abarrotada de livrarias. Muitas se encontram na famosa Avenida Corrientes, sendo a maior concentração entre a Avenida Callao e 9 de Julio. Entre as mais velhas e tradicionais estão El Ateneo  ( Av. Santa Fé, 1860), La Librería de Ávila (Alsina 500, esquina com a rua Bolívar, perto da Plaza de Mayo ) e El Túnel ( Avenida de Mayo 767).

Anfitrião de shows históricos como os de Carlos Gardel, o Teatro Grand Esplendid, é hoje casa da livraria El Ateneo, menina dos olhos de muitos turistas em visita á capital por sua arquitetura grandiloqüente que inclui cúpulas com afrescos italianos e camarotes que fazem lembrar a era dourada dos Barões da Borracha no Brasil.

Nascida em 1919, a construção já foi teatro e cinema deixando esta condição em 2000 para transformar-se em uma das mais belas livrarias do mundo – opinião de vários diários estrangeiros de prestigio como o inglês The Guardian. Embora tenha uma proposta estritamente comercial e tenha se rendido sem restrições a praga editorial endêmica que são os Best Sellers, livros de auto-ajuda e outras publicações de natureza frívola, ainda é um refúgio para aqueles que buscam um intervalo literário sob olhar atento da metrópole.  

Apesar do fato de que o número de argentinos que lêem venha caindo de acordo com as pesquisas. No ano que vem Buenos Aires será a capital mundial do livro, um título outorgado pela Unesco, Associação Internacional de Editores (IPA), Federação Internacional de Livreiros (IBF) y Federação Internacional de Associações de Bibliotecas (IFLA). Um reconhecimento mais do que justo para  uma cidade que, segundo o governo de Buenos Aires, tem mais de 350 livrarias, uma para cada seis mil habitantes, um número que supera o total de livrarias em todo o Brasil.

Até o dia 10 de maio, em Palermo, no espaço de eventos La Rural, mais 1300 expositores se reúnem para a maior feira de livros do mundo hispânico.  Uma acrópole de workshops, leituras, atividades culturais, assinatura de livros se abre sobre a cidade de Buenos Aires. Anualmente, mais de um milhão de pessoas visitam a feira. Entre as presenças mais ilustres já estiveram nomes como Jorge Amado, Paul Auster, Italo Calvino, Vinicius de Moraes, José Saramago, Susan Sontag,  Jorge Luis Borges, Adolfo Bioy Casares, Mario Vargas Llosa e outros.

Para este ano, estão programados ciclos de narração oral, circuitos comparativos Borges – Kafka, workshops sobre o movimento Beatnik entre outras opções em um farto buffet literário. Razões a mais para apaixonar-se pela metrópole e seus livros, e torcer é claro pela longevidade de jóias raras como El Cryptodón.

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