A Cidade e os Excluídos

12 maio

 

A realidade é tao insólita quanto a ficçao

No filme “O terminal”, de 2004, dirigido por Steven Spielberg e protagonizado por Tom Hanks, o personagem  Viktor Navroski , impedido de entrar nos Estados Unidos , e de retornar ao país natal  fictício Krakozhia, se vê obrigado a viver numa espécie de limbo no aeroporto JFK, em Nova Iorque.  Supostamente, a estória é inspirada em um refugiado Iraniano que 1988 residia no aeroporto Charles de Gaulle, em Paris, onde seus documentos foram roubados. No Brasil, existem registros de turistas assaltados ou sem dinheiro para retornar as suas casas que acabam morando provisoriamente nos aeroportos de cidades nordestinas. Mas nada como a estória que esta semana intrigou a Argentina.

Segunda -feira  Buenos Aires acordou para um caso insólito que fez com que a ficção se aproximasse da vida real, comovendo os porteños. O jornal Crônica publicou uma matéria que falava de uma família que há dois anos morava em um dos Shoppings mais burgueses da capital: o centro comercial Alto Palermo.  

O "lar" da família Félix

Há dois anos Félix, uma arquiteto aposentado, sua mulher e filha de 36 anos tiravam sonecas nas poltronas do Mcdonald, tomavam banho nos banheiros do shopping e faziam suas refeições na praça de alimentação do local. Conhecidos como discretos, bem vestidos e educados, passaram incólumes por muito tempo. Empregados de estabelecimentos locais, no entanto, já haviam notado a presença da família e lhes prestavam pequenos favores como guardar alimentos nos refrigeradores dos restaurantes do shopping. A filha, que muitos afirmam ser poliglota, chegou a dar aulas de inglês na pracinha de alimentação.

Jornais chegaram a publicar fotos degradantes do casal dormindo nas poltronas da sorveteria Freddo . Um episódio jornalístico questionável que parece privilegiar o sensacionalismo em detrimento da dignidade dos personagens a quem se referem.  Até porque, segundo relatos, Félix e sua família pareciam dispostos a grandes sacrifícios para, paradoxalmente, proteger sua privacidade.  Será no mínimo irônico se a comoção causada pela exposição de sua estória for um divisor de águas para suas vidas, dando à família o privilégio de um lar. Fato que, segundo o jornal La Nación, se aproxima.

 De acordo com o diário, o governo já teria levado os três para um abrigo e outorgado a Félix uma pensão extra de cerca de R$ 350 reais para que encontrasse uma nova vivenda. A incrível saga da família de Félix ganhou até um espaço de destaque no facebook com uma página intitulada “Para los que vieron a los viejitos que viven en Mc Donald del Alto Palermo”. Na comunidade, milhares de relatos de pessoas que afirmam conhecer o casal, além de fotos e depoimentos de quem se solidariza com a triste situação dos três.

Estatísticas da organização Médicos do Mundo sugerem que mais de 11 mil pessoas vivem nas ruas de Buenos Aires, ou “personas en situacion de calle” como são conhecidos na Argentina.  Com os ventos do inverno patagônico roçando as portas da capital do país, a situação ganha tons de tragédia. Exagero ou não, outro dia, um taxista me relatou que, no ano passado, mais de 150 pessoas morreram de frio nas ruas de Buenos Aires. Pelas manhas é possível ver os mendigos da capital aninhando-se em cobertores imundos em uma cena cinza capaz de estreitar os músculos do coração de qualquer um.

Estamos acostumados a reconhecer os rostos dos moradores de rua de nossos bairros como se fossem vizinhos de nossas portas quando na verdade estão dormindo a sombra delas. Um pouco de nossa humanidade  se esvai quando reconhecemos entre eles algumas crianças de pouca idade também. São advogados, engenheiros, arquitetos, professores e muitos outros profissionais capacitados empurrados em direção as margens da dignidade por uma situação econômica que em 2001 atingiu níveis desesperadores.

Nas ruas de Buenos Aires reconhecemos rostos desoladores de senhores que poderiam ser nossos avôs em um Deju Vú triste e solitário que espalma o passado de uma nação que, em outros tempos, já aspirou a justiça social dos mais ricos. Numa Argentina destroçada pela ingerência de seus economistas nem tudo é doce de leite. Alguns cafés da manhã são bem amargos.

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