Arquivo | julho, 2010

Aussie N’Bossa

30 jul

 

Filho de imigrantes russos casado na Argentina/ Com uma pintora judia, Casou-se pela segunda vez /Com uma princesa africana no México / Música hindú contrabandiada por ciganos poloneses faz sucesso/No interior da Bolívia zebras africanas/ E cangurus australianos no zoológico de Londres. Múmias egípcias e artefatos íncas no museu de Nova York/Lanternas japonesas e chicletes americanos/Nos bazares coreanos de São Paulo./Imagens de um vulcão nas Filipinas/ Passam na rede dc televisão em Moçambique/ Armênios naturalizados no Chile Procuram familiares na Etiópia (.. .)”

 

Bonecas Russas: Expatriado russo faz pé em salao de Palermo e dá dicas de turismo. Isto é Buenos Aires!

A música do Titãs Disneylândia tem tudo a ver com Buenos Aires. É possível que em São Paulo tenha um montão de gringos. Mas aqui a torre de Babel não é uma torre e sim um arranha-céu.  Outro dia um exilado russo fez meus pés e serviço de manicure, em um cabeleireiro de Palermo, enquanto me dava dicas de turismo na Patagônia. Bonecas russas, pensei! Ia falando com um sotaque do leste europeu e gírias típicas portenhas como “Que sé yo” e “Viste?” que, quando penso, me faz rir sozinha!Além disso, tirando a mancha, ele era a cara de Gorbachev!!!!Pelas ruas da cidade, Oui ,Merci, grrrracias, Thank you, danke, obrigada,  uma quantidade enorme de turistas, estudantes, imigrantes, enfim a prova cabal de que a Globalização já exterminou as fronteiras tangíveis deixando apenas as diferenças culturais para dar conta de nossas nações limítrofes ou não. Ainda sim, é possível surpreender-se com o grau de interação cultural que ela nos proporciona.  

Australiano, de Melbourne, meu amigo Asher Lessels, é uma dessas figuras hibridas que rodam o mundo desafiando o conceito de nacionalidade. Canta uma Bossa como poucos brasileiros que conheço. Ama mutantes, secos e molhados, João Gilberto e tem limitado repertório quando pedimos algo em inglês.  Meteu-se entre os brasileiros como se fosse um deles. Virou uma mascote dos expatriados, está em todas, e é o violeiro oficial das reuniões brazucas na Capital argentina. Adora um palco! E hoje ganha um em Palermo, no espacio LTK, Acevedo 1031. A entrada são míseros 5 pesitos e é minha dica cultural do dia. O show de Aussie N’Bossa começa as 22hrs. É mais uma estrofe para a cançao de Titãs: estudante australiano faz show de música brasileira em Buenos Aires!

Ñ: La Pasión según G.H e a invasão de Praga

30 jul

 

Lispector em castelhano

Todas as sexta-feiras faço minha procissão silenciosa ao jornaleiro. Motivo: comprar o suplemento Ñ ( oficialmente é de sábado!), por o equivalente 0,75 de real, do jornal Clarín. É meu momento de sonhar com todas as infindas opções culturais que esta cidade oferece fingindo que desconheço o fato de que serei capaz de ir a menos de 10% das incríveis alternativas que estão no semanário. Não importa, o direito de sonhar é irrevogável. E a edição desta semana está feita para sonhar. A revista Ñ de hoje traz uma excelente matéria sobre a reedição em espanhol do livro a Paixão Segundo G.H, de nossa Clarice Lispector. Além disso, publicou uma entrevista bacanérrima com seu mais recente biógrafo, Benjamim Moser. De quebra ainda traz uns techinhos em espanhol da obra de Lispector, uma mão na roda para mim que vira e mexe quero dividir algo especial de nossa cultura com meus amigos estrangeiros.  

Invasao em Praga invade Buenos Aires

Traz também um especial sobre o fotógrafo checo Josef Koudelka, que documentou em imagens a invasão de Praga em 1968, mostra que chega á Capital no dia 05 de Agosto. E uma importante review sobre o livro Escritos sobre Tango, que faz uma radiografia sobre o gênero musical que já ganhou adeptos em todo o mundo, entre outras matérias imperdíveis. Corram as bancas!

Site da revista: http://www.revistaenie.clarin.com/

Sweet Buenos Aires!

28 jul

Pode ser que Buenos Aires seja dura!

Pode ser que Buenos Aires seja hedionda.  Pode ser que eu ligue a televisão e haja mil acidentes de transito, 200 crimes passionais, viciados em craque e em amor, gente miserável dormindo nas ruas, assaltos a supermercados chineses e afanação de carteira na Florida. Mas, há lugares onde Buenos Aires é doce. Apenas doce. Pequenas bolhas de ternura que estão sempre no por do sol com luzes amareladas e árvores charmosas, crianças e carrosséis.  Existem lugares na Capital que guardam um je ne sais quoi  de infância, o cheio dos bolos das avós; a melancolia bucólica da vida se espreguiçando. Uma daquelas tardes eternas que devem ter inspirado Cortázar, Borges e tantos outros. Pequenos bolsos de vida que acontecem alegremente apesar do mundo.

Buenos Aires sublime...

Um desses lugares é Palermo Viejo, eu gosto, especificamente falando, da região perto da Plaza Armenia  (também conhecida como Plaza Palermo Viejo), descendo do burburinho da Plaza Serrano. É diferente durante a semana é certo. As senhorinhas distintas de Buenos Aires, os pais incrivelmente bonitos, as adolescentes abastadas, os bebes que ainda nem sabem que nasceram na classe média alta, as babás e os turistas mais inteirados estão por aí dando um ar de inocência que vamos lá, pode até perder sua graça para o batidão da feirinha de sábado, mas mantém sua dignidade bucólica até os fins de tardes meio felizes e tristes de domingo.

 
 

Fim de tarde de domingo na Plaza Palermo Viejo

Argentinos têm uma relação bem resolvida com o açúcar. Sabe-se lá porque milagre metabólico  não são todos pacientes de espera na fila da bariátrica. Os doces estão em todo lugar sendo mais abundantes que as guloseimas salgadas, não fosse pela carne que, por sua vez, não leva muito sal.  O maravilhoso mundo das Facturas, uma espécie de evolução do pão doce que pode vir com um milhão de diferentes recheios, formas e gradação de açúcar poderiam matar um diabético numa só mordida e subir os níveis de insulina numa só olhada de qualquer atleta.

Facturas: um esporte radical!

Eu não encaro. Fiz a escolha consciente pela vida.

Medialunas: Minha Satisfacion!

Não tenho o bom sangue desse povo, de descendência judaica, sou capaz de engordar de alguém está comendo no país ao lado. Mas, não posso deixar de admirá-las de forma passiva como se fossem uma boa exposição no MALBA, no bom e velho estilo “you can look but you can touch!”. Estão presentes junto as semi doces medialunas, pequenos croissants que podem ser de manteca ou grassa ( manteiga ou gordura senhor?) . Eu enjoei. Estou como Mick Jagger que dizia que preferia morrer a ter que cantar Satisfation pelos próximo vinte anos de sua vida. Nada me faz querer comer medialunas pelos próximos vinte anos. Prontofalei. Não é uma crítica gastronômica á Argentina, existem grandes ultrajes a saúde humana na culinária brasileira também ( para os quais fomos evolutivamente equipados com sal de frutas). Longe de mim. Mas, enquanto meu pâncreas não for geneticamente modificado, estou fora.

Abrindo uma excecao!

Mas, existem ocasiões em que ficar sem o doce da vida é castigo!!!!!!

Muffins no Muma's Cupcakes!

Uma dessas ocasiões é deixar passar um cupcake no Muma’s , Malabia 1680. Sabe a casa doce em que ficavam presos João e Maria? Devia ser algo por aí. Uma pequena lojinha, sempre apinhada de gente, com um a licença poética do exagero, tem um cheiro que é mistura de céu com paraíso, aroma de nuvem, de raio de sol e orvalho matutino. Um verdadeiro Olímpio de pequenos bolinhos enfeitados como debutantes mexicanas com detalhes tão fofos e comestíveis que dá vontade de empalhar-los e jamais triscar neles.

E mais, aqui não há discriminação: o lugar é diabéticos e celíacos

 friendly! Eu sempre levo minhas visitas lá, principalmente àquelas que não alcançam o balcão e é só sucesso. Não são tão baratinhos ( entre 5 e 7 reais), mas valem cada peso! Curtam o site e o calendário de que dia sai o que do forno: http://www.mumascupcakes.com/

Minha visitinha ilustre tendo seu momento "é tudo meu!" no Muma's cupcakes!

Don’t cry for me Argentina

26 jul

 

Para quem estiver pela Capital e quiser ver de perto um pouco da comoção causada pela na celebração dos 58 anos da morte de Evita Perón, fica a dica: as 18hrs no encontro da Av. Belgrano e 9 de Julio, procissão de tochas organizada pela Corriente Nacional del Sindicalismo Peronista e outras 62 associações. Confira o roteiro completo AQUI!!!!!

A intensa vida de Evita depois de morta

26 jul

 

“La Argentina es un cuerpo de mujer que está embalsamado” ( Tomáz Eloy Martinez)

Hoje fazem exatos 58 anos da morte de Evita Perón. Como os pôsteres de Gardel, estou acostumando- me a conviver com suas imagens espalhadas pela cidade. E, não vou omitir, quando vim morar aqui fui até o mausoléu da Família Duarte, no cemitério da Recoleta, onde está sepultada, para pedir passagem.  Disse: “Essa cidade já foi tua, agora é minha!”. Estou aos poucos entranhando a megalomania argentina? Não! Mas, confesso que precisava de sua bênção. Temos ambições diferentes para esta cidade, a dela era encontrar um príncipe ou presidente, a minha é ser feliz, com ou sem príncipe/presidente.

Quando se aproxima uma data comemorativa, como a de hoje, aproveito para me educar um pouco e, uma boa maneira de fazer isso, é escrever. Conheço ainda pouco sobre sua vida. Até agora, li apenas um livro sobre Eva Perón. Era um relato insólito e magistralmente escrito sobre – pasmem – seu corpo!  Evita viveu certamente uma vida fascinante. Ao lado um dos homens mais importantes da historia argentina, General Juan Domingo Perón, foi amada pelo povo até sua morte no dia 26 de julho de 1952. Pipocam anedotas de sua tenacidade, dignidade, teimosia lendária e paixão pelo povo. Com o pouco que sei, seria impossível fazer um julgamento político de sua gestão.

 

Norma Shearer: Evita era fan

Dizem que sua mãe fora literalmente comprada por seu pai por uma carroça e um jumento. 

Posteriormente, retornando a sua esposa legitima.  E que teve uma infância pobre e fora escorraçada junto a sua família do enterro do pai por sua condição de bastarda.  Afirmava aos quatro ventos no povoado de Junín, onde vivia, que só se casaria com um príncipe ou um presidente e era fanática pela atriz canadense Norma Shearer. Com apenas 15 anos, foi viver na capital sob o proteção de Agustín Magaldi, considerado então uma espécie de Gardel do interior do País. Nove anos depois, conhece Perón, então vice-presidente.  

De desconhecida a imortal: 7 anos

De totalmente anônima, como uma muchachita de pueblo qualquer, a sua morte aos 33 anos de câncer no útero, como uma das mulheres mais adoradas do continente, passaram-se apenas sete anos.  É difícil separar a mulher do mito.Buenos Aires está impregnada de estórias sobre ela. Todos gostam de romantizar um pouco. Eu gosto de romantizar-la.

Era atriz. Ficção ou realidade, tornou-se a mãe dos “descamisados” a deusa dos desvalidos, a mãe precoce e loira de uma nação órfã de seus pais coloniais.

Sua vida foi, inegavelmente, intensa. Mas, teve uma morte ainda mais agitada. Sua vida depois de morta, e não sua biografia ao lado de Juan Domingo Perón, é tema do livro Santa Evita, publicado em 1995, pelo recém falecido mestre da literatura argentina, Tomáz Elóy Martinez. Ela não conheceu descanso até quase 16 anos depois de sua morte. Vitima de loucos, necrófilos, tramas políticas e dramas pessoais, o paradeiro do corpo de Eva Perón foi, por muito tempo, um dos maiores segredos argentinos. Conta Martinez que tamanha era a desinformação a cerca de seu destino que até sua mãe morreu sem saber onde estava, mesmo depois de anos percorrendo repartições do governo. “El cadáver de Evita es el primer desaparecido de la historia argentina. Durante 15 años nadie supo en dónde estaba. El drama fue tan grande que su madre (Juana Ibarguren) clamaba de despacho en despacho pidiendo que se lo devolvieran. Y murió en 1970 sin poder averiguar nada. No sabía -nadie o casi nadie lo sabía- si la habían incinerado, si lo habían fondeado en el fondo del Río de la Plata. Si la habían enterrado en Europa…

 

Pedro Aro assiste atonito ao sequestro de sua obra

Foi no dia 23 de novembro de 1955 que um perturbado senhor da inteligência argentina, diante da presença atônita de Pedro Aro, médico que embalsamou a primeira dama como se fosse um faraó egípcio, levou da sede da CGT da Argentina o corpo de Evita

 Descumprindo as ordens do presidente Pedro Eugenio Aramburu, que lhe ordenou que desse ao cadáver uma saudável sepultura, o tenente coronel Carlos Moori Koenig inexplicavelmente submete então Evita a uma peregrinação a bordo de um furgão, de uma floricultura,  por quase meia Buenos Aires. Era o começo de um calvário lúgubre, com nuances oníricas e macabras que chocaria o mundo. É impossível narrar aqui o pobre trajeto que Eva Perón é submetida depois de morta. Um símbolo do Peronismo, seu corpo era demasiado pesado para um governo que tentava se desfazer da presença de Perón.

Como  todo governo militar, tirano e desestruturado, não havia um plano. Evita é depositada em um prédio da Marinha e posteriormente levada por Koening  a sua casa onde é exibida como um souvenir do peronismo a seus convidados. Na casa oficial logo abaixo de Koening, Arandía, Evita foi testemunha de mais uma tragédia: crendo ser vítima de um ataque peronista para o resgate do corpo da primeira dama, Arandía assassina sua mulher grávida. Um show de horrores que só terminaria quase duas décadas depois, em Madrid.

Conte Biancamano

Como a igreja nunca pode abster-se de meter as mãos nas operações políticas mais obscuras e moralmente questionáveis da história humana, foi ela a encarregada de ajudar no “brilhante plano” de enterrar Eva Perón sob um nome falso na Itália. Com a ajuda magnânima da instituição, o corpo é traslado a Milão. Evita empreende então mais uma viagem a bordo do navio “Conte Biancamano”, com destino a Genova.

María Maggi de Magistri é nome sob o qual María Eva Duarte de Perón é enterrada no principal cemitério de Milão. Giussepina Airoldi é a graça da senhorinha que por 14 anos, religiosamente e inadvertidamente, levou flores ao túmulo de “uma bondosa mulher italiana que morreu na Argentina, em um acidente automobilístico, e que desejava ser enterrada em sua terra natal”. Permitam-me um adendo, mas ditaduras são incrivelmente equipadas por figuras insólitas com idéias distorcidas sobre a dignidade humana.

Aramburu: Nem Evita pode salvar-lo

No entanto, a odisséia da primeira dama estava longe de um fim, entre os outros capítulos de esta novela quase inverossímil,  quase vira moeda de troca no seqüestro do presidente Aramburu, quando é levado por radicais da esquerda ( Montoneros) em 1965. Mas, não chega a salvar-lhe a vida. É então requisitada para que se devolvesse, posteriormente, o cadáver do militar. Mas, é só em 1971 que seu cadáver é devolvido a Perón, na Espanha. Levaria ainda mais cinco anos para chegar ao seu país natal, sendo recebido pela terceira esposa de Perón, Isabelita, que na ausência de seu marido já morto, a devolveu a família Duarte.

Martinez: "A Argentina é um corpo de mulher embalsamado"

Sobre a incrível saga argentina nos meandros da odisséia do mundo, deixo as palavras de Martinez. Uma argentina que devora a si mesma com seus cadáveres embalsamados no armário, um país com um passado sobrehumano, superhumano e quase inverossímil.

Parece que en la Argentina hubiera como una especie de instinto fatal de destrucción, de devoración de las propias entrañas. Una veneración de la muerte.La muerte no signiflca el pasado. Es el pasado congelado, no significa una resurrección de la memoria, representa sólo la veneración del cuerpo del muerto. La veneración de ese residuo es una especie de ancla. Y por eso los argentinos somos incapaces de construirnos un futuro, puesto que estamos anclados en un cuerpo. La memoria es leve, no pesa. Pero el cuerpo sí. La Argentina es un cuerpo de mujer que está embalsamado”.

Viva Perón! Viva Perón!

25 jul

 

Bom dia Buenos Aires! Vamos acordar para o “lavoro”! Nada melhor para curar a ressaca do que a Marcha peronista. Perón! Perón! Dias intensos de muito estudo e borrachera, vamos acordar para a vida minha gente num belo começo de tarde chuvosa na capital do extremo sul do meu continente! Viva Perón!

E para os cabeludos de plantão a versão Heavy Metal. Yeah, yeah!

Liberem o Balaio!

23 jul

 

Vivo em Buenos Aires, mas sou candanga. E, embora este blog seja sobre as glórias, delicias e desafios de viver na capital Argentina, não me são indiferentes as notícias chegam de Brasília. Uma cidade incrível que, de maneira particular, vem desenvolvendo uma vida cultural muito especial. Os guerrilheiros da cultura brasiliense (digo isso porque é gente que tem muita gana) estão botando para quebrar, fazendo de Brasília uma cidade com grandes opções de cinema, arte, música e outras calçadas culturais. Um verdadeiro pólo de cultura urbana que está no caminho de não dever nada aos outros grandes centros urbanos brasileiros.

Um lugar unico!

Um desses lugares fundamentais para o fomento da cultura na cidade é o Balaio Café na 201 norte. Anfitrião de pequenas mostras de cinema, arte e música, o Balaio estava avançando para tornar-se um relevante centro cultural candango. A frente dele está uma das figuras mais guerreiras e excepcionais, que tenho a sorte de chamar de amiga, que é a nossa Jul Pagul, um verdadeiro soldado da cultura candanga. Mas, como em Brasília nenhuma boa ação fica impune, cassaram o alvará de funcionamento dessa sensacional esquina do mundo.

Estão órfãos artistas e cineastas que dependiam do espaço para expor suas obras, estar entre os amigos e aproveitar esta instituição da noite brasiliense. É mais do que fechar um bar porque meia dúzia de vizinhos se incomoda com a felicidade alheia, é ceifar uma das melhores opções culturais da cidade e criar a cultura reacionária da censura as boas intenções e boas idéias.

"Apesar de voce amanha há de ser outro dia"

Por isso, fica aqui meu desabafo e o pedido para que tomem um minuto de seu dia mostrar que é melhor ser alegre que ser triste, que apesar de você amanha há de ser outro dia e apoiar este lugar de gente fina, elegante e sincera assinando o abaixo assinado em repudio a cassação do alvará de funcionamento do Balaio Café AQUIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIII!!!!!!

Adote um Bodegon!

21 jul

 

Meu lado Amélia adora o suplemento de culinária que publica todas as quartas-feira o jornal argentino Clarín intitulado Ollas y Sartenes . Mas, ia comer mosca se não se não fosse a indicação do meu amigo, o jornalista Maurício Boff. Desde a semana passada, o diário vem publicando matérias sobre os melhores bodegones da cidade. Para quem não sabe, e eu mesma não sabia antes de vir viver aqui, os bodegones são esta instituição porteña que o artigo define como “um lugar para comer comida caseira, em grandes porções, com preço correto, ambiente amigável e longe das modas passageiras”.

Bodegon: encontre o seu!

Mas, na verdade, são mais que isso. São estas esquinas do mundo que resistem à padronização do tempo. Aqueles lugares onde garçons que já deveriam estar aposentados sentem-se em casa e te servem fazendo piadas impróprias ou não, conhecem os clientes mais tradicionais em uma aura boêmia e geriátrica que faz com que você nunca mais queira entrar numa Mcdonald’s. Em Buenos Aires, são tão patrimônio histórico quanto os museus e monumentos, um lugar para ver velhinhos solitários que te lembram Borges, famílias varando gerações de freqüência, donos e clientes se misturando, em um clima de bairro que faz com você tenha vontade de pertencer a uma comunidade, dessas que promovem bailinhos de tango e campeonatos de gamão.  E, por que não, comer bem!

E come-se bem e farto!

O difícil mesmo é variar.

Os garçons deveriam ser tombados, patrimonio da cidade...

Depois que “agarras amor” pelo lugar é ( mesmo que você seja para eles do tipo gringo disfuncional, meio a Alemã do Bagdá Café) e provar outros lugares. Vejo-me repetindo este padrão em Buenos Aires. Há lugares não aconchegantes que te impedem que conheça outros lugares. É uma tentação. Mas, quando vê aquele garçom que já te conhece, vindo com aquele tradicional traje de pingüim, com aquela superada bandeijinha e adorável mau humor, algo terno nasce.  

Algo familiar e nostálgico...

De qualquer forma, se você está só de passagem, e ainda não agarrou amor por aquele velho garçom intragável, que de tão rabugento ficou fofinho, fica aqui a matéria dos Bodegones publicados pelo Clarín ( a primeira). AQUI!!!!

E lista:

Albamonte . Corrientes 6735, 4553-2400.

Almacén y Bar . Cochabamba 1701, 4304-4841.

Angelito . Camargo 490 4855-9667.

Bar del Gallego.

Bonpland 1703, 4771-1526.

Bellagamba . Av. Rivadavia 2183, 4951-5833.

Café de García.

Sanabria 3302, 4501-5912.

Cantina Chichilo . Camarones 1901, 4584-1263.

Cervecería López . Alvarez Thomas 2138, 4552-0275.

Club Eros . Uriarte y Honduras, 4832-1313.

Club Hungaria . Pasaje Juncal 425, La Lucila. 4799-8437.

Don Chicho.

Plaza 1411, 4556-1463.

Bar El Chino.

Beazley 3566, Pompeya, 4911-0215.

El Defensor . Defensa 1380, 4307-1012.

El Desnivel.

Defensa 855 4300-9081.

El Obrero.

Agustín Caffarena 64, 4362-9912.

El Preferido de Palermo.

Jorge Luís Borges 2108, 4774-6585.

El Puentecito . Luján 2101 4301-1794.

El Renaciente.

Medrano y Gorriti, 4862-9905.

Para quem ainda não agarrou amor pelo garçom octogenário e mal humorado do seu bodegon favorito fica a sugestão do livro do italiano naturalizado super porteño, Pietro Sorba, que minha amiga e bloggeira favorita, Gisele Teixeira, me emprestou e eu estou enrolando para devolver.  O nome é Bodegones de Buenos Aires e é fácil de encontrar nas livrarias da cidade. Do mesmo autor, Parrilas de Buenos Aires é também uma grande opção para aqueles que acham que alface é planta de jardim e se rendem sem restrições aos prazeres da carne – e por isso entende-se um belo bife de chorizo com 8 cm de largura com uma capa de 3 cm de gordura.  Vale a pena conferir também a lista de bodegones do descoladérrimo site Planeta Joy, AQUI!!!!

Depois, adote seu bodegon e curta. Mi casa es su casa.

Feliz dia do Amigo!

21 jul

Hoje é dia do amigo. E para comemorar deixo aqui o vídeo que gravou esta manhã meu amigo Artur Cavalcante, uma paródia do alfabeto castelhano. Para aqueles que querem saber o que nós fazemos na Argentina. É basicamente isso, como dizem por aqui, boludeamos ( ainda sem tradução para o português, mas é bem do tipo bobeiramos). Vale à pena prestar atenção na letra, seriíssima: “o v é Be para por na internet é triple doble V”, entre outras pérolas. Feliz dia do amigo para os de perto e os de longe.

Os Judeus que eu não conheci

20 jul

Em Busca de Cerro Condor

Há dias não pára de chover em Buenos Aires. E meu humor andava tão cinzento quanto o céu da Capital. Há dias planejava também uma ida a Asociación Mutual Israelita Argentina (AMIA) para fazer umas fotos para o blog. Para quem não se lembra, a AMIA é a associação judáica que, em 1994, sofreu um atentado terrorista vitimando 85 pessoas e ferindo outras 300. Há 16 anos, completos ontem, ás 9:53 da manhã, horário da explosão, uma sirene toca lembrando o momento exato em que 85 almas expiraram naquela manhã . A chuva e o medo de ser contagiada pela tristeza dos fatos me distanciaram do número 633 da Rua Pasteur, que não fica muito longe de minha casa ( exatos 750 metros, segundo Google Maps). E meu Post sobre os 16 anos do atentado estava rumando para o engavetamento.

Thompson, ele era a estória

Lembrei-me então de Gay Talese e Hunter Thompson que, quando suas matérias furavam ou ficavam frias, escreviam sobre o fracasso de não obter-las ou a Odisséia da tentativa. Hunter Thompson tem um par de matérias escritas assim. Ora por estar doidão demais para apurar-las, ora porque lhe interessava mais seu próprio personagem que a estória em si.

Já Gay Tallese tem um livro inteiro dedicado aos seus fracassos

O Fracasso é a estória

 jornalísticos. Minha Vida de Escritor  narra a saga de matérias engavetadas e de pessoas engavetadas pela vida também. Entre os destaques de seu livro estão a semi biografia de Lorena Bobbit, que nos anos noventa decepou o penis do marido – vale aqui o adendo que o órgão foi encontrado pela polícia reimplantado na vítima, que além de tentar reatar seu matrimonio tornou-se estrela pornô posteriormente –  ,  a vida discreta da jogadora chinesa que perde o gol que define a Copa do Mundo de futebol feminino contra os Estados Unidos, vários episódios do momento por igualdade civis norte-americano, além da biografia de um edifício em Nova York que parece sepultar todos negócios gastronômicos que se abrigam nele.

 Aqui, outro adendo, Talese acompanha este edifício, sem grandes marcos históricos nem características marcantes, por mais de quatro décadas. Lembra de cada restaurante que quebrou no lugar, cada dono que eles tiveram e até dos garçons mais célebres.

Siluetas: vidas interrompidas

Para relembrar os 16 anos do atentado contra a AMIA. Foram colocadas 30 siluetas em tamanho real com os rostos de pessoas que faleceram na manhã de 18 de julho de 1994 em diversos pontos da cidade. É como se tivessem ficado suspensas no tempo a caminho de uma vida que nunca chegaram a completar. Como se o susto fosse a permanência de suas existências, penduradas pelo instante exato em que lhes ceifaram a vida. Muitos atos solenes foram celebrados. Eles pediam a extradição dos mentores intelectuais e operacionais da explosão. Entre eles sete altos funcionários do governo iraniano que, além de se negar a extraditá-los, os promoveu a cargos de confiança em seu governo. Para se ter uma idéia, um deles é Ministro da Defesa Iraniana.

Escombros da AMIA

Muito se fala por aqui da omissão do presidente Menem ( Mendéz, Gabriela!) e de funcionários de seu governo. De origem Síria, além de omissão, o ex presidente é acusado de manter relações próximas com as organizações acusadas de perpetrar o ato terrorista. Além dos atos solenes e das siluetas, a agencia de publicidade Ogilvy, recebeu a tarefa de fazer um spot para a televisão, cinemas e também para veiculacao em metros da capital. O resultado é o comovente vídeo  que mostra imagens cotidianas do povoado argentino em Chubut, Cerro Cóndor, que tem exatamente 85 habitantes. A idéia é dimensionar o número exato de pessoas que faleceram no atentado mostrando com enorme sutileza a perda humana que significaria, neste caso, a desaparição deste povoado. Deixo aqui o vídeo que fala por si só.