Os Judeus que eu não conheci

20 jul

Em Busca de Cerro Condor

Há dias não pára de chover em Buenos Aires. E meu humor andava tão cinzento quanto o céu da Capital. Há dias planejava também uma ida a Asociación Mutual Israelita Argentina (AMIA) para fazer umas fotos para o blog. Para quem não se lembra, a AMIA é a associação judáica que, em 1994, sofreu um atentado terrorista vitimando 85 pessoas e ferindo outras 300. Há 16 anos, completos ontem, ás 9:53 da manhã, horário da explosão, uma sirene toca lembrando o momento exato em que 85 almas expiraram naquela manhã . A chuva e o medo de ser contagiada pela tristeza dos fatos me distanciaram do número 633 da Rua Pasteur, que não fica muito longe de minha casa ( exatos 750 metros, segundo Google Maps). E meu Post sobre os 16 anos do atentado estava rumando para o engavetamento.

Thompson, ele era a estória

Lembrei-me então de Gay Talese e Hunter Thompson que, quando suas matérias furavam ou ficavam frias, escreviam sobre o fracasso de não obter-las ou a Odisséia da tentativa. Hunter Thompson tem um par de matérias escritas assim. Ora por estar doidão demais para apurar-las, ora porque lhe interessava mais seu próprio personagem que a estória em si.

Já Gay Tallese tem um livro inteiro dedicado aos seus fracassos

O Fracasso é a estória

 jornalísticos. Minha Vida de Escritor  narra a saga de matérias engavetadas e de pessoas engavetadas pela vida também. Entre os destaques de seu livro estão a semi biografia de Lorena Bobbit, que nos anos noventa decepou o penis do marido – vale aqui o adendo que o órgão foi encontrado pela polícia reimplantado na vítima, que além de tentar reatar seu matrimonio tornou-se estrela pornô posteriormente –  ,  a vida discreta da jogadora chinesa que perde o gol que define a Copa do Mundo de futebol feminino contra os Estados Unidos, vários episódios do momento por igualdade civis norte-americano, além da biografia de um edifício em Nova York que parece sepultar todos negócios gastronômicos que se abrigam nele.

 Aqui, outro adendo, Talese acompanha este edifício, sem grandes marcos históricos nem características marcantes, por mais de quatro décadas. Lembra de cada restaurante que quebrou no lugar, cada dono que eles tiveram e até dos garçons mais célebres.

Siluetas: vidas interrompidas

Para relembrar os 16 anos do atentado contra a AMIA. Foram colocadas 30 siluetas em tamanho real com os rostos de pessoas que faleceram na manhã de 18 de julho de 1994 em diversos pontos da cidade. É como se tivessem ficado suspensas no tempo a caminho de uma vida que nunca chegaram a completar. Como se o susto fosse a permanência de suas existências, penduradas pelo instante exato em que lhes ceifaram a vida. Muitos atos solenes foram celebrados. Eles pediam a extradição dos mentores intelectuais e operacionais da explosão. Entre eles sete altos funcionários do governo iraniano que, além de se negar a extraditá-los, os promoveu a cargos de confiança em seu governo. Para se ter uma idéia, um deles é Ministro da Defesa Iraniana.

Escombros da AMIA

Muito se fala por aqui da omissão do presidente Menem ( Mendéz, Gabriela!) e de funcionários de seu governo. De origem Síria, além de omissão, o ex presidente é acusado de manter relações próximas com as organizações acusadas de perpetrar o ato terrorista. Além dos atos solenes e das siluetas, a agencia de publicidade Ogilvy, recebeu a tarefa de fazer um spot para a televisão, cinemas e também para veiculacao em metros da capital. O resultado é o comovente vídeo  que mostra imagens cotidianas do povoado argentino em Chubut, Cerro Cóndor, que tem exatamente 85 habitantes. A idéia é dimensionar o número exato de pessoas que faleceram no atentado mostrando com enorme sutileza a perda humana que significaria, neste caso, a desaparição deste povoado. Deixo aqui o vídeo que fala por si só.

Uma resposta to “Os Judeus que eu não conheci”

  1. Gisele Teixeira 20 de julho de 2010 às 1:45 PM #

    Boa Gabi!

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