Arquivo | julho, 2010

Adote um Bodegon!

21 jul

 

Meu lado Amélia adora o suplemento de culinária que publica todas as quartas-feira o jornal argentino Clarín intitulado Ollas y Sartenes . Mas, ia comer mosca se não se não fosse a indicação do meu amigo, o jornalista Maurício Boff. Desde a semana passada, o diário vem publicando matérias sobre os melhores bodegones da cidade. Para quem não sabe, e eu mesma não sabia antes de vir viver aqui, os bodegones são esta instituição porteña que o artigo define como “um lugar para comer comida caseira, em grandes porções, com preço correto, ambiente amigável e longe das modas passageiras”.

Bodegon: encontre o seu!

Mas, na verdade, são mais que isso. São estas esquinas do mundo que resistem à padronização do tempo. Aqueles lugares onde garçons que já deveriam estar aposentados sentem-se em casa e te servem fazendo piadas impróprias ou não, conhecem os clientes mais tradicionais em uma aura boêmia e geriátrica que faz com que você nunca mais queira entrar numa Mcdonald’s. Em Buenos Aires, são tão patrimônio histórico quanto os museus e monumentos, um lugar para ver velhinhos solitários que te lembram Borges, famílias varando gerações de freqüência, donos e clientes se misturando, em um clima de bairro que faz com você tenha vontade de pertencer a uma comunidade, dessas que promovem bailinhos de tango e campeonatos de gamão.  E, por que não, comer bem!

E come-se bem e farto!

O difícil mesmo é variar.

Os garçons deveriam ser tombados, patrimonio da cidade...

Depois que “agarras amor” pelo lugar é ( mesmo que você seja para eles do tipo gringo disfuncional, meio a Alemã do Bagdá Café) e provar outros lugares. Vejo-me repetindo este padrão em Buenos Aires. Há lugares não aconchegantes que te impedem que conheça outros lugares. É uma tentação. Mas, quando vê aquele garçom que já te conhece, vindo com aquele tradicional traje de pingüim, com aquela superada bandeijinha e adorável mau humor, algo terno nasce.  

Algo familiar e nostálgico...

De qualquer forma, se você está só de passagem, e ainda não agarrou amor por aquele velho garçom intragável, que de tão rabugento ficou fofinho, fica aqui a matéria dos Bodegones publicados pelo Clarín ( a primeira). AQUI!!!!

E lista:

Albamonte . Corrientes 6735, 4553-2400.

Almacén y Bar . Cochabamba 1701, 4304-4841.

Angelito . Camargo 490 4855-9667.

Bar del Gallego.

Bonpland 1703, 4771-1526.

Bellagamba . Av. Rivadavia 2183, 4951-5833.

Café de García.

Sanabria 3302, 4501-5912.

Cantina Chichilo . Camarones 1901, 4584-1263.

Cervecería López . Alvarez Thomas 2138, 4552-0275.

Club Eros . Uriarte y Honduras, 4832-1313.

Club Hungaria . Pasaje Juncal 425, La Lucila. 4799-8437.

Don Chicho.

Plaza 1411, 4556-1463.

Bar El Chino.

Beazley 3566, Pompeya, 4911-0215.

El Defensor . Defensa 1380, 4307-1012.

El Desnivel.

Defensa 855 4300-9081.

El Obrero.

Agustín Caffarena 64, 4362-9912.

El Preferido de Palermo.

Jorge Luís Borges 2108, 4774-6585.

El Puentecito . Luján 2101 4301-1794.

El Renaciente.

Medrano y Gorriti, 4862-9905.

Para quem ainda não agarrou amor pelo garçom octogenário e mal humorado do seu bodegon favorito fica a sugestão do livro do italiano naturalizado super porteño, Pietro Sorba, que minha amiga e bloggeira favorita, Gisele Teixeira, me emprestou e eu estou enrolando para devolver.  O nome é Bodegones de Buenos Aires e é fácil de encontrar nas livrarias da cidade. Do mesmo autor, Parrilas de Buenos Aires é também uma grande opção para aqueles que acham que alface é planta de jardim e se rendem sem restrições aos prazeres da carne – e por isso entende-se um belo bife de chorizo com 8 cm de largura com uma capa de 3 cm de gordura.  Vale a pena conferir também a lista de bodegones do descoladérrimo site Planeta Joy, AQUI!!!!

Depois, adote seu bodegon e curta. Mi casa es su casa.

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Feliz dia do Amigo!

21 jul

Hoje é dia do amigo. E para comemorar deixo aqui o vídeo que gravou esta manhã meu amigo Artur Cavalcante, uma paródia do alfabeto castelhano. Para aqueles que querem saber o que nós fazemos na Argentina. É basicamente isso, como dizem por aqui, boludeamos ( ainda sem tradução para o português, mas é bem do tipo bobeiramos). Vale à pena prestar atenção na letra, seriíssima: “o v é Be para por na internet é triple doble V”, entre outras pérolas. Feliz dia do amigo para os de perto e os de longe.

Os Judeus que eu não conheci

20 jul

Em Busca de Cerro Condor

Há dias não pára de chover em Buenos Aires. E meu humor andava tão cinzento quanto o céu da Capital. Há dias planejava também uma ida a Asociación Mutual Israelita Argentina (AMIA) para fazer umas fotos para o blog. Para quem não se lembra, a AMIA é a associação judáica que, em 1994, sofreu um atentado terrorista vitimando 85 pessoas e ferindo outras 300. Há 16 anos, completos ontem, ás 9:53 da manhã, horário da explosão, uma sirene toca lembrando o momento exato em que 85 almas expiraram naquela manhã . A chuva e o medo de ser contagiada pela tristeza dos fatos me distanciaram do número 633 da Rua Pasteur, que não fica muito longe de minha casa ( exatos 750 metros, segundo Google Maps). E meu Post sobre os 16 anos do atentado estava rumando para o engavetamento.

Thompson, ele era a estória

Lembrei-me então de Gay Talese e Hunter Thompson que, quando suas matérias furavam ou ficavam frias, escreviam sobre o fracasso de não obter-las ou a Odisséia da tentativa. Hunter Thompson tem um par de matérias escritas assim. Ora por estar doidão demais para apurar-las, ora porque lhe interessava mais seu próprio personagem que a estória em si.

Já Gay Tallese tem um livro inteiro dedicado aos seus fracassos

O Fracasso é a estória

 jornalísticos. Minha Vida de Escritor  narra a saga de matérias engavetadas e de pessoas engavetadas pela vida também. Entre os destaques de seu livro estão a semi biografia de Lorena Bobbit, que nos anos noventa decepou o penis do marido – vale aqui o adendo que o órgão foi encontrado pela polícia reimplantado na vítima, que além de tentar reatar seu matrimonio tornou-se estrela pornô posteriormente –  ,  a vida discreta da jogadora chinesa que perde o gol que define a Copa do Mundo de futebol feminino contra os Estados Unidos, vários episódios do momento por igualdade civis norte-americano, além da biografia de um edifício em Nova York que parece sepultar todos negócios gastronômicos que se abrigam nele.

 Aqui, outro adendo, Talese acompanha este edifício, sem grandes marcos históricos nem características marcantes, por mais de quatro décadas. Lembra de cada restaurante que quebrou no lugar, cada dono que eles tiveram e até dos garçons mais célebres.

Siluetas: vidas interrompidas

Para relembrar os 16 anos do atentado contra a AMIA. Foram colocadas 30 siluetas em tamanho real com os rostos de pessoas que faleceram na manhã de 18 de julho de 1994 em diversos pontos da cidade. É como se tivessem ficado suspensas no tempo a caminho de uma vida que nunca chegaram a completar. Como se o susto fosse a permanência de suas existências, penduradas pelo instante exato em que lhes ceifaram a vida. Muitos atos solenes foram celebrados. Eles pediam a extradição dos mentores intelectuais e operacionais da explosão. Entre eles sete altos funcionários do governo iraniano que, além de se negar a extraditá-los, os promoveu a cargos de confiança em seu governo. Para se ter uma idéia, um deles é Ministro da Defesa Iraniana.

Escombros da AMIA

Muito se fala por aqui da omissão do presidente Menem ( Mendéz, Gabriela!) e de funcionários de seu governo. De origem Síria, além de omissão, o ex presidente é acusado de manter relações próximas com as organizações acusadas de perpetrar o ato terrorista. Além dos atos solenes e das siluetas, a agencia de publicidade Ogilvy, recebeu a tarefa de fazer um spot para a televisão, cinemas e também para veiculacao em metros da capital. O resultado é o comovente vídeo  que mostra imagens cotidianas do povoado argentino em Chubut, Cerro Cóndor, que tem exatamente 85 habitantes. A idéia é dimensionar o número exato de pessoas que faleceram no atentado mostrando com enorme sutileza a perda humana que significaria, neste caso, a desaparição deste povoado. Deixo aqui o vídeo que fala por si só.

Si yo fuera Maradona

15 jul

La vida es una tómbola… de noche y de día…
la vida es una tómbola y arriba y arriba….

* patrocinio Jackson do Pandeiro.

A boa educación de Almodóvar

15 jul

Reproduzo aqui a carta do cineasta espanhol, Pedro Almodóvar, destinada aos senadores de Salta, e publicada pelo jornal argentino Página 12, pedindo a aprovaçao da Lei de Igualdade que beneficia casais homossexuais. Abalou!

Queridos amigos: El matrimonio homosexual no le hace mal a nadie, no le roba nada a nadie, sin embargo hace feliz a mucha gente y les proporciona la posibilidad de vivir de un modo honesto, pleno y coherente junto a la persona que aman. Es un derecho esencial en toda sociedad civilizada, de lo contrario se está marginando a muchas personas en virtud de su sexualidad.

Hablar de igualdad en este sentido no es un capricho de degenerados, la Declaración Universal de los Derechos Humanos afirma que todos somos iguales, con independencia de nuestro sexo, religión, condición social, idioma, raza, etc.

No hay que permitir que ideas sectarias, retrógradas, inmovilistas, sexistas e injustas impidan a una sociedad libre progresar.

Es mentira y ridículo clamar que el matrimonio homosexual supone un peligro para la familia. Al contrario, las familias homosexuales aseguran el futuro de la idea de familia y la enriquecen. No se puede imponer la familia biológica como único modelo familiar, o se está yendo contra la realidad. Si algo caracteriza a la familia contemporánea es su enorme variedad. He conocido familias con solo una madre, un solo padre, dos madres, dos padres, familias multiétnicas, familias en las que ningún progenitor es biológico. Familias cuyos miembros pertenecen a distintas lenguas y culturas, familias que en millones de casos no son católicas. Se quiera o no, esas familias existen y adoran a sus hijos, y los cuidan y los educan, tanto como cualquier familia biológica, porque están basadas en el amor y en la solidaridad humanas.

No estoy en condición de pedir nada a los señores del Senado argentino. Para aprobar la ley que permita los matrimonios homosexuales no apelo ni siquiera a su sentido de la justicia, sólo les pido que hagan caso de su sentido común. Es lo único que necesitan para votar afirmativamente.

* Cineasta español.

Argentina, a rainha do deserto

15 jul

 

Vigilia na frente do Congresso

Nos últimos dias só se falavam de duas coisas na Argentina: a onda de frio que invadiu o país e a tramitação da lei que aprova o casamento de pessoas do mesmo sexo no país. E foi sob este frio polar que milhares de pessoas enfrentaram a madrugada de ontem de temperaturas quase negativas para acompanhar em frente ao Congresso da nação a votação da lei que dava equidade de direitos ao matrimonio de homossexuais.

Aprovada!

As quatro da manhã veio o veredito do Senado: 33 senadores  a favor, 27 contra e 3 abstenções transformaram a Argentina no primeiro país da América Latina a legalizar o casamento homossexual. O dia 15 de julho é uma data história na luta por igualdade de direitos de gays e lésbicas por aqui. Agora, só falta a presidente do país, Cristina Kirchner, que é abertamente a favor do matrimonio gay, sancionar a lei. Foi incrível acompanhar também o apoio heterossexual á campanha dos homossexuais. Com todos os taxistas que conversei, por mais humildes que me pareceram suas raízes, estavam de acordo com a aprovação da lei. Meus amigos mais machões, as pessoas menos esclarecidas, já pareciam reconhecer uma realidade que chegou para ficar: nós heterossexuais não temos que meter o bedelho na vida amorosa dos outros.

Festa no Congresso!

A retrógada Igreja do país terá que “chupar esta manga arco-íris” e dar por fracassados seus esforços de mostrar a nova lei como uma dissolução dos valores de família. Durante meses, as associações de direito homossexuais agüentaram dignamente debates regionais e nacionais que os tachavam de doentes, anormais, aberrações e outros absurdos que só uma instituição retrógrada e reacionária como é a igreja sul-americana é capaz de verbalizar. Na noite anterior a votação, gente de todo país ( como de Mendoza, 14 horas daqui) veio expressar sua ignorância e intolerância graças a convocatória da igreja. Isso, fez com que me fugisse a explicação lógica de porque, em pleno inverno glacial, alguém enfrentaria uma viagem de 14 horas para expressar seu ódio.

O argumento de que o Estado deve dar condições iguais aos seus cidadãos, independente de suas preferências pessoais, prevaleceu na noite de ontem em cima daqueles que tachavam a nova lei de uma permissividade imoral.  Faço aqui um adendo que, para mim, imoralidade é a pedofilia velada que a igreja vem permitindo desde seus primórdios contra vítimas silenciosas ou silenciadas ao largo da história de suas instituições.

Madruga histórica

Falta agora o resto das nações sul-americanas passarem por cima de seu machismo e moralismo histórico e seguirem o exemplo da Argentina que, dessa vez, saiu na frente. É preciso acabar com essa inquisição contra uma situação que está mais do que consolidada. Ninguém vai deixar de amar porque não pode se casar e nem de adotar porque não vem de uma união de pessoas de sexos distintos. Vítima de caudilhos, ditaduras, expropriação sucessiva, roubos coloniais e ingerências histórias, a América Latina só não pode ser vítima de sua própria ignorância.   Muy bien Argentina, neste deserto a Rainha é você!

Santa Ignorância!

14 jul

 

“Será que nunca faremos

Santa Ignorancia senhor, dai-me paciencia.

Senão confirmar

A incompetência

Da América católica

Que sempre precisará

De ridículos tiranos

Será, será, que será?

Que será, que será? “(Caetano)

São lamentáveis as imagens que ficam repetindo os canais de televisão argentinos nesta gélida noite de terça-feira. Convocados pela igreja mais 70 mil manifestantes se reúnem em frente ao Congresso argentino para exprimir sua opinião contra a aprovação do matrimonio de pessoas do mesmo sexo que será votado neste domingo pelo Senado deste país. Ecos do retrógrado discurso das Igrejas católica e evangélica se escutam na Capital esta noite.

Pai, perdoai-os; eles não sabem o que fazem"!

Opiniões intolerantes, dogmáticas, descontextualizadas e reacionárias ganham espaço nos tele jornais argentinos. É um show de retrocesso, um pesadelo que faz lembrar os piores capítulos de um livro de Eduardo Galeano, as mais visionárias canções de Caetano. A Igreja sul-americana mostra mais uma vez que perdeu o trem para o século XXI e porque nosso quinhão do mundo não consegue superar as piores heranças coloniais. Uma igreja alvejada por estilhaços de pedofilia se crê mais uma vez o verdugo das novas idéias de igualdade. Tomara que a igreja argentina tenha que comer sua hipocrisia asada na parrilla no domingo e que este canto do mundo se mostre bem mais moderno e tolerante do que esperam que sejamos!

A reação da lado branco da força já começou no Obelisco! Como diria Fito Paez : “Quien dijo que todo está perdido…”