La vie en rose

10 ago

Magendie, o clima também é light

Outro dia – eu não vou dar nomes   – em um almoço de comadres, discutimos a culpa que sentimos ao sermos felizes em Buenos Aires. Parece absurdo, mas é verdade! Não nos ensinam a ser feliz na escola. Não te dizem como é chegar lá. E, principalmente, não te falam que ser feliz não significa enlouquecer de júbilo todos os dias. Esquecem de contar-nos que a felicidade reside “clandestina” nas pequenas alegrias. É feita de um material translucido e efêmero, mas não deixa de ser o heroísmo dos pequenos contentamentos. Não é estar na crista da onda em todos os momentos e  sim surfar uma onda com seus altos e baixos e erguer-se com dignidade depois dos caixotes. É não dar tanta importância aos “caldos” do mar da vida. Quantas pessoas neste momento estão sendo felizes às escondidas? A felicidade talvez seja a última das grandes subversões.

Não sou a única, como vim a constatar , que é feliz em Buenos Aires.Neste momento, muita gente está sendo feliz em Buenos Aires.Um contingente enorme de pessoas veio virar a mesa com um único objetivo em comum: ser feliz em Buenos Aires. Seja qualquer for seu motivo:  estudar, bel far niente, trabalhar, mudar de Aires, o comércio desta Capital, para muita gente que conheço, é felicidade. Estamos contrabandeando felicidade. Viemos mudar de vida, recomeçar, tentar outra vez. Viemos tomar café, vinho, comer doce de leite, ler poesia, ir ao teatro, cinema, exposições, festivais, dançar tango, beber fernet, caminhar sob alamedas, escrever, ler, apaixonar-nos e estudar francês.Eu não vim estudar Frances. Mas estou estudando Frances em Buenos Aires. Faz parte do “porque não estudar Frances em Buenos Aires?”E outro dia comecei um curso de contos.

Nas segundas feiras, pela noite, nos reunimos em um distinto apartamento em Palermo para lermos. Eu, outra jornalista, duas graduadas em ciências políticas, duas senhoras aposentadas e nossa professora de literatura. É isso, sem nenhum motivo prático, as nove da noite de segunda-feira lemos Quiroga. Por quê? Porque não ler Horário Quiroga juntas as nove da noite de uma segunda-feira em Buenos Aires? 

Ultimamente estou explorando meu francês. Ma français est trés bizarre. Os cursos na Capital são um terço do que pagaria no Brasil. E sabe-se lá porque, entrei num Buenos Aires em français mode.

Oui, Oui, Je suis heureux !

Domingo fui feliz a um brunch em Palermo Hollywood. Não havia explorado ainda este bairro. Vou explicar rapidamente. Não sei por que Palermos ganham estes sobrenomes esnobes. Acho que é parte da especulação imobiliária. O fato é que temos Palermo Viejo, Chico, Soho, Alto e Hollywood. É tão ridícula a situação que o bairro acima, imediatamente adjacente, de nome Colegiales, chamamos, a título de piada, de Palermo High School.

Comidinha de primeira

Desci no metrô de Carranza. E, vejam só, Palermo Hollywood é Holiúdiano. Ares de aristocracia velha modernizada, cheio de gente descolada com aqueles óculos de Risky Business, caras e bocas, ar invernal, arvores altas, e descascando em cinza, casarões e prédios novos em harmonia, tudo sob a luz amarela de inverno. E o brunch? Uma hora de espera por uma mesa dentro do Oui Oui (Nicaragua, 6068). Uma filial de paraíso com bouquets rosas secas pendurados nas paredes, menus escritos com caligrafia caprichada a giz, um ar de cozinha kirsh francesa e pratos simples e deliciosos me fizeram feliz nesse domingo. Comemos ovos, bacon, batatas e sopa de abobora. Estava tudo ótimo, de um ótimo tranqüilo, não era a culinária de Ferran Adriá, mas também não era aquela milanesa frita no óleo que viu Perón chegar á presidência. Adorei e deixo a dica. Leve seu Clarín, Página 12 e La Nación para dar uma volta em Palermo Holiúdi no domingo.

Afrique!Bereber, para ser feliz tambien!

Ainda em français, mais pro lado français afrique, fui feliz comendo esta semana no Bereber ( Armenia 1880), um restaurante marroquino, que passa longe do barato( felicidade não tem preço, não é mesmo?) , mas é que é uma super dica para ir a dois, impressionar a patroa, curtir um tajine, um couscous, um cordeiro. A boa é pedir o menu de degustação e ficar gemendo a cada garfada nas cumbuquinhas de barro. Não é um farnel, não é barato, mas estava tudo trés gostoso. E um vinho de 55 pesos ( que é bem caro para meus padrões e até padrões argentinos) , Tapiz, faz descer tudo que é uma beleza.  

 

Ser feliz comendo light

Outro dia, minha amiga Vivi me fez muito feliz ao me levar para comer leve e sano no  Magendie ( Honduras 5900).Lá um quadro conta a estorinha de como seguem a risca os ensinamentos do fisiologista francês François Magendie e propõem uma refeição super balanceada com 0% de gordura, 0% açúcar e tudo orgânico. Não deixam de lado, no entanto, o sabor. O cardápio de almoço não ultrapassa 38 pesos e inclui uma sopinha, um prato principal e uma bebida ( pode ser um vinhozinho).   Uma barganha! 

Eterna Cadencia: Borges acreditava que o paraíso era uma espécie de livraria. Eu também!

O lugar perfeito para estudar debruçada sobre um brownie!

Finalmente, fui feliz esta tarde estudando sobre um brownie no café da Livraria Eterna Cadencia ( Honduras, 5574), poucas quadras do Magendie. Tudo bem que passo pela porta e peço para quem for minha companhia esconder meu cartão de crédito para que ele não saia em uma excursão pela Disneylândia literária. O café propriamente dito é um espaço incrível, uma Meca do saber, com um café em um pátio doce, com plantas, livros e quadros, sem cardápio, na companhia de meus escritores favoritos. Estou curtindo La vie en Rose em Buenos Aires. Non rien, non rien, non je ne regrette non rien…

Meus amigos: gente fina, elegante e sincera, sendo felizes em Buenos Aires

10 Respostas to “La vie en rose”

  1. Virson 10 de agosto de 2010 às 9:12 PM #

    Me sinto feliz só de me imaginar entrando naquela livraria.
    Tão delicioso quanto as comidas é o teu texto, Gabi. Saludos

  2. Beethoven 11 de agosto de 2010 às 2:46 AM #

    Deu vontade de tentar ser feliz em Buenos Aires também!

    Quero ler mais BsAs gata, arrasa!

    Beijos.

  3. Vivi 11 de agosto de 2010 às 9:54 PM #

    E como não ser feliz vivendo assim? Resta-nos contentarmos com nossos momentos de tristeza, dentre os quais: comer uma milanesa frita em óleo passado! rs Dá pra administrar, não? Aliás, vamos aumentar a felicidade marcando um almoço num novo de Belgrano- Möoi – e comprando as entradas pro Drexler? Bjs

    • conexaobuenosaires 12 de agosto de 2010 às 7:56 PM #

      Primeiro passo comprar entradas por Drexler, quero primeira fileira, sentindo o perfume do moço, o paixao.
      E confio 100% em vc para indicarme restaurantes!to dentro, vou dar meu rolézinho pelas montanhas ( meu deus me senti a Paris Hilton falando isso) e na volta, debruçadas sobre as fotos da viagens seremos felizes no Mooi.
      Beijoooos querida, saudades já!

  4. Marco Cavalheiro - Buenos Aires Dreams 12 de agosto de 2010 às 9:54 PM #

    Que texto inspirador!!! Lindo! Me deu vontade de me mudar agora mesmo!! Só preciso da coragem que eu tinha aos 06 anos de idade….

  5. conexaobuenosaires 13 de agosto de 2010 às 12:11 AM #

    Marco qualquer um que ame Buenos Aires como voce merece esse pedacinho de américa. Sou daquelas que acredita que a vida recompensa nossas coragens, das menores as maiores!Suerte!

  6. viviane 26 de agosto de 2010 às 2:40 AM #

    muito obrigada pelo blog!
    vou seguir algumas de suas experiências a partir do proximo domingo…=)

    ate!!!

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