Mendoza: Pão e Vinho

25 ago
 
 
 

A Mendoza das bodegas...

Existem duas Mendozas. Aquela dos aventureiros que vieram para descer e subir montanhas, esquiar e escalar, e a Mendoza do bel far niente, daqueles que vieram comer e beber.  Pessoalmente, me identifico com os dois grupos. Não que eu seja muito atlética, mas a idéia da natureza selvagem me é muy cara. Mas, devo confessar, que depois de um dia no Cerro do Aconcágua, dos excessos cometidos nos bares locais, com o ouvido ainda cheio de bolsões de ar, o frio que faz nas alturas e a sinusite atacando, comer e beber me parecem hoje as melhores opções para Mendoza.

 

Mendoza tem quatro caras, uma para cada estaçao...

Cercada por milhares de vinícolas, de pequenas bodegas, a grandes e conhecidas marcas, Mendoza é um prato cheio (ou uma taça) para refestelar-se no melhor da cozinha rural e nos vinhos. Como dizem os locais: “Si a Mendoza vino sino para tomar el vino, para que vino?” ( pequeno trocadilho infame com a palavra vino em espanhol que pode significar vinho e veio). Luján de Cuyo, comarca que acotovela-se com a capital, é, final de contas, a capital do Malbec ( com direito a placa na entrada do vilarejo com uma folhinha que lembra a da bandeira do Canadá).Existem milhares de tours para conhecer bodegas e fazendas de azeite de oliva na província de Lujan de Cuyo, Maipu e Valle de Uco. Fizemos um que nos levou a pequena bodega familiar, uma mais industrial, uma orgânica ( onde dizem os vinhos são de mais baixa qualidade, eu sou desprovida desse paladar aguçado graças a deus) e uma fábrica de azeite extra virgem. É tudo muito romântico sobre a sombra das montanhas que guardam os vinhedos que em esta época do ano não passavam de tocos retorcidos geometricamente organizados até perder-los de vista. Isso, fez com que eu entendesse que, além da Mendoza gastronômica e para enólogos, existe a Mendoza quatro estações.
Ficou claro para mim que o lugar não é uma paisagem estática e sim

Nao sou Obelix, mas cai num barril de Roble...

pintados a mão pela natureza nas quatro estações que marcam o ano. Mendoza será uma com suas parreiras em gestação, outra sem suas crias, apenas arvores esperando uma safra e finalmente a natureza erma e seca que vi durante a dureza do inverno. E a cidade adapta-se a cada uma de suas épocas com diferentes esportes, comidas, passeios e suas ruas com distintas paisagens delineadas pelas enormes veredas de arvores que se precipitam sobre as ruas mendocinas.  Mendoza em si não é atraente ao primeiro olhar. Parece uma dessas cidades de interior em Santa Catarina, como as que se desenvolveram com a indústria do carvão e telhas no cerne do estado, com veredas de prédios baixos e sem grandes atrativos intercalados por grandes construções que não formam padrão nenhum. Mas, uma voltinha pelas ruas da moda e a dramática paisagem na qual está submersa fazem com que tenha lá seus méritos de ponto de partida e entreposto para o há que afora de seus portões viários. 

 
 

 Fui mordida pelo mesmo bicho que mordeu meus amigos Gisele e Edu e deixei minha carteira de motorista em Buenos Aires. 

Criança feliz passeia pela vinícula Don Arturo, familiar...

Uma bobeira que me custou. E essa é minha dica. Vale a pena alugar um carro se você não quer um Mcpasseio feliz em vans de turismo ( existem mais passeios assim do que uvas em Mendoza). O melhor de Mendoza não vem com guias de turismo, nem com hora marcada. É tomar as rotas rurais e ir batendo de vinícola em vinícola. Seja para passear nas grandes como a Norton, Tapiz, Nieto Senetiner, Chandon, Lopez ou simplesmente aproveitar a “bienvenida familiar” nas pequenas bodegas familiares como a orgânica Família Cecchin. O melhor de Mendoza é self service. Um dos melhores passeios que fizemos foi tomar um taxi até La Rural (http://www.bodegalarural.com.ar), uma vinicula com Museu onde é possível entender como foi se aprimorando o processo de produção de vinho na passagem dos séculos e passear livremente por entre enormes barris de “roble” trazidos da França.
 

 

O melhor de Mendoza é caminhar livremente

 Depois, caminhar livremente pela alameda que leva ao vilarejo até minha próxima dica gastronômica, o restaurante Casa de Campo. No caminho, quando a meteorologia permite, é possível alugar bicicletas. Seria minha segunda opção, não fosse o frio polar que varria o planalto da précordilheira. Existem também bicicletas motorizadas que deixaram como criança na ânsia de provar. O pequeno casebre sentado na beira da estrada Casa de Campo não está exatamente no campo.

Casa de Campo, comer como na casa da vovó

Mas, sua culinária remete ao melhor da cozinha caseira e rural com ingredientes fresquíssimos, atendimento informal e cordial e uma carta de vinhos de fazer enólogos  salivarem. Eu não entendo nada nada nada de vinhos. Tenho amigos que já tentaram ensinar-me algo. Mas, cá entre nós, não gostaria de adquirir este hábito caro de separar o joio do trigo. Até agora me viro bem sendo feliz com 90% dos vinhos que me dão, sabendo o suficiente apenas para discernir um vinho avinagrado de um próprio para o consumo. No entanto, é inegável a beleza de tomar um vinho que acaba de deixar seu berçário. Tomar um vinho em Mendoza é tomar um vinho em Mendoza. E a Casa de Campo tem uma carta de enlouquecer qualquer um. Fui pelo mais barato e o mais barato era um dos melhores que já tomei. Bodega Sin Fin se chamava.Para comer é qualquer coisa que fez a vovó. As azeitonas orgânicas que são mais fruta que acepipe, a carne de panela ao Malbec parece preparada pela tia Anastácia dos livros de Lobato e as empanadas mendocinas merecem um capitulo a parte. O que comemos em Buenos Aires sob o nome de empanada deveria ser renomeado.

Nossa aventura em Mendoza terminou com um almoço languido na Casa de Campo, numa ensolarada e fresca tarde de terça-feira quando rumamos a Santiago numa despedida vespertina e nostálgica que nos deixou querendo mais. Mais Argentina. Na mala, alguns azeites artesanais e um vinho orgânico. Levarei saudades das top 5 melhores de Mendoza: comer a picada do El Palenque (uma generosa porção de tudo que há de bom nessa terra pelo módico valor de 35 reais, podendo comer três), ver o vento varrer o Cerro do Aconcagua, escutar dez vezes como é feito o vinho em uma pequena bodega que se esmera de sua produção , ver campos de uvas terminar em montanhas nevadas e  mendocinos (sim porque, atenção meninas, mendocinos são como portenhos super size e vem com batatas fritas!). Divina Mendoza…

Serviços Top Top:

Comer

El Palenque (Av Aristides Villanueva 287): Comer bem, porções generosas, comer picada, empadas de queijo e presunto e Camtipalo.  Batatas fritas. Comer bem tudo que há neste lugar.

Casa de Campo ( Urquiza 1516, Ruta Del Vino, metros de la RuraL) http://www.casadecampomza.com: Comida rústica, com ingredientes locais e extensa carta de vinhos. As porções andam mais na calçadas de pequenas rações que das generosas, mas é barato. Vale a pena investir em empanadas e entradas.

Caro Pepe ( Av. Las Heras y Chile): Para comer bem e muito barato. Self Services são caros na Argentina. O que mais se assemelha ao nosso modelo são conhecidos como tenedores libres (ou garfo livre). O caro Pepe se assemelha a uma churrascaria com aquele clima de família aos domingos. Sai cerca de 25 reais por pessoa e nos deixou depois com anacondas que comeram uma capivara. Não tem glamour, mas é onde mendocinos vão refestelar-se.

1884 (Belgrano 1188, Godoy Cruz) http://www.1884restaurante.com.ar : Nosso tempo e Budget não nos permitiu. Mas, já havia escutado falar e conheci um casal que nos recomendou. Não é barato se pensa em pesos como eu, mas em real não é absurdo para a experiência gastronômica que é. Fica na Bodega Escorihuela e é um restaurante Boutique de Francis Mallmann. Será um dos primeiros lugares que pretendo ir quando voltar a Mendoza.

Dormir

Com pouco dinheiro e coração e alma abertas nos propomos a albergar nosso caminho pela América. Sempre em quartos duplos. Não é para todo mundo. No final da viagem estávamos já querendo luxo, room service e tudo mais. Mas, as pessoas que conhecemos, as festas que fomos e o clima inigualável que proporcionam os albergues nos fizeram recomendar este tipo de hospedagem. Existem vários hotéis de qualidade internacional em Mendoza, mas pensando em dimdim reduzido aqui vão minhas sugestões.

Ibis Mendoza: Minhas viagens de trabalho me fizeram adorar esta cadeia de hotéis. Não tem frescura, mas também não tem luxo. Sem surpresas.O Ibis de Mendoza fica na saída para a rota dos vinhos, cerca de 5 km do centro de Mendoza. É ideal para quem alugou um carro. E o preço é ótimo, cerca de 45 dólares por noite.

Hostel Parque Central (25 de Mayo, 1889) www.hostelparquecentral.com : Hospedamo-nos ai porque o dono era amigo de uma amiga mendocina que mora em Buenos Aires. Só mesmo para os mais aventureiros e com orçamento reduzido. Valeu a pena pela atenção dos meninos, as dicas e o clima de Republica. Não fica muito no centro, mas é limpissimo. Vamos sentir saudades.

Breaking Point, Itaka e Damajuana: Estes são os três albergues mais badalados de Mendoza. Ficam na badalada rua Aristedes Villanueva, cheia de barzinhos, restaurantes, clima de High Mountain Social Club. A maioria tem quartos duplos. É a melhor maneira de ter algo de privacidade e curtir o climinha de albergue.

http://www.damajuanahostel.com.ar/

http://www.breakpointhostel.com.ar/

http://www.itakahouse.com/

Alugando uma Bici

Mr. Hugo ( Urquiza 2288): Te invejo. O tempo frio não deixou com que eu tivesse essa alternativa. Bicicletas e Mendoza tudo a ver.Mas acho uma ótima. Deixo a aqui uma opção: www.mrhugobikes.com

Bodegas e mais bodegas, um paraiso etilico

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