Las Casas del Capitán: La Chascona

1 set

 

Capitão Neruda e seus barcos

Eu não fui apenas ao Chile, um lugar que sempre ocupou um latifúndio em meu imaginário, mas também a Neruda . De adolescente havia lido um montão de Neruda, todos os livros de Isabel Allende e muitas histórias sobre o país e, há anos, esperava uma oportunidade de ir ao Chile. Um vôo barato e uma pequena pausa no mestrado me proporcionaram adentrar esta tripa territorial espreguiçando-se sobre o pacifico cuja história sempre me fascinou um pouco. Dos horríveis contos da ditadura de Pinochet, ao realismo fantástico de seus autores, terremotos, ás canções de exílio, amor e desespero de Neruda, o Chile era um buraco em meu mapa pessoal que há muito tentava preencher. Esperava encontrar Neruda, mas não vê-lo em todas as esquinas. Esperava ir à casa do poeta, como iria à casa de Frida Kahlo se estivesse no México, mas não que viesse até mim com a força com que veio.

 

E Santiago é muito mais do que esperava.  Dizem que às vezes a poluição é tão intensa que não se pode ver os Andes. Mas, em outros dias, estão lá, abres uma janela e sentinelas de pedra e neve de olham de volta acocoradas em seus milhares de metros,  lembrando-nos que nem toda terra é dos homens. Meu guia de América do sul diz que Santiago tem seu charme “talvez não seja como Buenos Aires”, mas tem sua graça. Criamos uma teoria. Há anos escuto dizer que “não há nada em Santiago”. Teorizamos que esta é uma bela tática para manter esta capital em segredo, longe da atividade turista depredatória, aquela que transforma lugares em parques temáticos. Santiago é linda. Tem um por do sol em tons rosáceos, a presença eterna das montanhas, a ameaça constante de terremotos, a presença caudalosa do rio Mapocho, arranhásseis, uma melancolia nostálgica e vilas ( Cités, como chamam por lá). Street arte como gosto, ruas limpas, bairros sonolentos e um cheiro permanente á torradas e geléia.  

Sobrevoar os Andes...

Vindo de Mendoza é um vôo de apenas 45 minutos, sendo quase vinte deles passados sobrevoando os Andes em um espetáculo que com meu pobre

The Clinic: Hay que leerlo

 jornalismo não seria capaz de descrever. Montanhas furando a barriga de nuvens gordas, gretas cobertas de nevoa e neve, cumes de pedra negra estendendo-se sobre a atmosfera. Uma das dez coisas para fazer antes de morrer. Aliás, top passeios para fazer em Santiago: ler o jornal The Clinic. Criado há dez anos, para ridicularizar o então convalescente general Pinochet, é um jornal que passa ao largo de ser sério. Sua edição imprensa lembra antigos tablóides e suas paginas estão cheias de ironia e matérias ridicularizando tudo, das instituições serias as não tão sérias assim.  Ir a um Café com Pernas. Verdadeiras instituições em Santiago, os Cafés com pernas são produtos chilenos que deveriam ser exportados.

Café com um horário familiar de 10hrs as 20hrs, com mulheres servindo o melhor café de barítonos em biquínis e oferecendo serviços que digamos, não são tão apegados aos valores de família assim. Existem várias gradações. Os mais sérios não são mais que cafés com pernas, mulheres de biquíni e café. Os mais arrojados oferecem serviços VIPS, massagens com finais surpreendentes e outras iguarias mais velhas que a bíblia. Depois, render-se a comer centollas no mercado Central, caranguejos monstros que podem custar até duzentos dólares no Mercado Central. Observar os Murais de grafite espalhados pela cidade, tomar a estranha bebida dos chilenos, Mote com Huesillos ( quem iria pensar em combinar pêssegos, suco e trigo em um copinho?), sentar-se a praça de Armas e observar as figuras e passear no bucólico bairro de Providencia estão entres meus programas preferidos na cidade.  E, se você é como eu e Tom Waits que tem “a bad liver and a broken heart”, tomar muito pisco, sem medo de ser feliz.

La Chascona: uma casa para vivir y amar

Ejetando-se de um cerro em Bellavista, um boêmio e aristocrático bairro do capital Santiago, depois de uma das orelhas do rio Mapocho, está La Chascona , uma mutação de alcova para dois amantes que primeiro encontravam-se em silencio e discrição antes de ganhar fama como um dos casais mais importantes chilenos. Foi em segredo que Neruda e Matilde continuaram ali um romance que teve seu ápice em Capri, na Itália, antes que ele deixasse a artista argentina Delia Del Carril, sua segunda mulher, vinte anos mais velha.  E Neruda, cujo oficio principal era amar mulheres e construir casas para amar-las e adorar-las, não podia ver seu derradeiro amor sem um templo de louvação apropriado. Assim, começa a construir “La Chascona”, uma de suas três casas- barcos porque, além de marinheiro em terra firme, era um grande construtor.

Neruda e Matilde

Chascona, palavra que significa despenteada por aquelas bandas, uma homenagem as abundantes madeixas de Matilde, é um quebra cabeça de madeira e concreto abraçando o Cerro que observa a capital, uma cidade que reside dentro de uma coroa de montanhas, graciosamente lambendo os pés da cordilheira dos Andes.  Eu, que apesar de ter algum espírito nômade de marinheira , cheguei lá numa sonolenta e fria manhã de quarta-feira, sob o efeito de minha primeira ressaca de pisco chileno e esperei meu tour no café numa varanda deitada sobre a cidade.Pelo terreno passava um braço de água que foi extinto antes que comesse a casa. Foi nele que os militares afogaram os livros de Neruda quando vieram mostrar a extensão de sua ignorância saqueando e vandalizando a casa. Neruda nunca ficou sabendo, morreu poucas semanas após o golpe de tristeza e doença. É possível sentir a umidade dos lugares que um dia tiveram água.  

 

Brasil - Chile: Homenagem de Vinicius a Neruda...

É possível também ver a cidade, as montanhas e o cerro de San Cristóbal. Aliás, convivi nesta viagem com a palavra Cerro como nunca pensei tê-la tão presente em nosso cotidiano. Subimos e descemos cerros para ver cidades ajeitando-se sobre as montanhas e montes, almoçamos em cerros, vimos o Aconcagua em um cerro, tomamos elevadores antigos para subir-los, descemos a pé por eles conhecendo ruas e cidades. Por fim, me apaixonei por esses calos de montanha no qual sobem as vidas e constroem moradas ajeitando-se sobre a terra íngreme. Estamos, e isso é um lembrete, em uma zona andina. La Chascona está acomodada em um terreno originalmente de 350 metros quadrados e traz em si algo de incrivelmente austero e também a opulência de seu colecionador. Neruda era um espírito fanfarrão e colecionador cuja obsessão por objetos arrasta-se pela casa e por sua prosa.

“Amo las cosas loca,

Matilde por Rivera, La Chascona e seu acervo artistíco

locamente.

Me gustan las tenazas,

las tijeras,

adoro

las tazas,

las argollas,

las soperas,

sin hablar, por supuesto,

del sombrero. (…)”

Cheio de idiossincrasias Neruda amava taças coloridas. Dizia que as bebidas tinham mais sabor nelas. Seria preciso ter mais olhos para aproveitar cada detalhe, mas um breve tour e nos foge algo de seu humor decorativo, sua comovente austeridade de espaços e intrigante opulência em detalhes. Garrafas, cinzeiros e réplicas das mãos de Matilde estão por todas as partes dando conta dos gostos de seu Dono e seus amores. Está claro que o poeta não era um simples marujo, era o capitão deste navio. Tetos abalonados de madeira não são metáforas marítimas são indicações claras da bússola deste capitão. Seu coração estava no mar e suas casas eram a escotilha de onde sua alma vislumbrava terra firme apenas para voltar a lançar-se ao mar com o conforto de que o mar encontrava porto a qualquer momento.  Mas, há algo de triste também.  Passei boa parte do recorrido pensando em pessoas cujo amor pela vida é tão pungente que jamais deveriam morrer. O capitão havia ancorado.

Neruda e suas taças coloridas, tudo tem mais sabor nelas, o poeta dizia...

O mundo de Neruda tem dedais, leques, copos, garrafas, mastros, conchas (Neruda as colecionava), estátuas, astrolábios, quadros, muitos quadros. Quadros de seus amigos ilustres. Na pinacoteca de Neruda há Rivera, David Alfaro de Siqueiros, Roberto Matta, José Caballero, Nemesio Antúnez, Fernand Léger, José Pancetti, Noé León, Mario Carreño, Héctor Cerrera, Fernando Krahm, entre tantos outros. Há algo pop também de uma casa que, criada em 1953, viu chegar os anos 60 com apenas um inquilino. Matilde, viveu em La Chascona sozinha, por os doze anos que sobreviveu ao seu cônjuge, desafiando a ditadura e secretamente publicando textos póstumos. Textos como a biografia do poeta que chegou ao Chile depois de ser publicada fora e veio escondida sob a capa de Teresa Batista, cansada de guerra, de Jorge Amado. São os detalhes que comovem. Detalhes como saber que Pablo Neruda não era seu nome de Batismo. Ricardo Eliécer Neftalí Reyes Basoalto só se transformou em Neruda muitos anos mais tarde, sabe-se porque, dizem que tomando o célebre nome de um poeta checo que admirava.  La Chascona é a testemunha de pedra de seu oficio e também de seu amor.

2 Respostas to “Las Casas del Capitán: La Chascona”

  1. Edu 1 de setembro de 2010 às 8:31 PM #

    Muy linda nota!
    Aunque me muero de sueño, porque hoy fue un dia de caminatas a morir, tuve energìas para leerla
    La Chascona es emocionante, construida para una aventura, saqueada por los pinochetos, reconstruida con amor por los chilenos.
    Estuvimos con Gisele en Santiago el año pasado:

    http://picasaweb.google.com/arqbaro/SantiagoDeChileSeptiembre2009#

  2. Marina Abreu 2 de setembro de 2010 às 11:41 PM #

    Mas que bonito! Vou colocar na minha lista de desejos de viagem…

    Adorei o texto – e o espaço de comentários, que no outro blog não tinha, né?! Beijos!

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