Valparaíso: Las Casas Del Capitán – La Sebastiana

4 set

“Siento el cansancio de Santiago. Quiero hallar en Valparaíso una casita para vivir y escribir tranquilo. Tiene que poseer algunas condiciones. No puede estar ni muy arriba ni muy abajo. Debe ser solitaria, pero no en exceso. Vecinos, ojala invisibles. No deben verse ni escucharse. Original, pero no incómoda. Muy alada, pero firme. Ni muy grande ni muy chica. Lejos de todo pero cerca de la movilización. Independiente, pero con comercio cerca. Además tiene que ser muy barata. ¿Crees que podré encontrar una casa así en Valparaíso?”

Valparaiso: Sensaciones Unicas

Valparaiso é uma cidade obcecada com o transporte . Não é apenas seu porto, boca aberta para o pacifico, que quer contribuir para o fluxo interminável de coisas e pessoas. Existem milhões de maneiras de transitar por Valparaíso, uma cidade portuária acomodada como uma meia lua sobre as encostas que dão ao mar a 100km de Santiago. Pode-se tomar o trolley, o ônibus, taxis individuais e compartidos, elevadores antigos que sobem os cerros, bicicletas, motos, barcos, etc. Em Valparaíso as pessoas movem-se horizontalmente, verticalmente, para todos os lados e em todas direções.

 Uma cidade tão singular que fascinou o cineasta Chris Marker, figura intrigante do cinema Frances que não concede entrevistas, não se deixa fotografar consentindo sempre um gato no lugar de sua imagem.

Chris Marker também ficou fascinado

E os gatos estão por todos os lados em Valparaíso. Chilenos têm uma curiosa relação com os animais. Cachorros e gatos estão por todos os lados. Sejam preguiçosas matilhas passeando pelas ruas de Santiago, sejam gatos que como velhas carpideiras te espiam por altíssimas janelas. No Chile, os animais são transeuntes que se aderem ao dia a dia da cidade sem serem incomodados. Talvez isso tenha fascinado Chris Marker. Talvez o singularismo da cidade portuária com seus trabalhadores do mar, suas ruas abarrotadas de barracas exibindo entranhas de peixes, seus marujos saltando das esquinas, ruas coloridas, ladeiras espreguiçando-se sobre o mar, casas vitorianas ejetando-se dos cerros ou mesmo o mistério que inexoravelmente vive nas ruelas o tenha fascinado.

Valparaíso é mar e poesia

 
 

Casa de Artilleria, um lugar mágico

Nas esquinas do meu quarto em uma belíssima casa no Cerro da Artillleria o papel de parede está curiosamente amassado deixando  bolsas de ar entre ele e a parede . Eu fiquei intrigada pelo o que parece um trabalho porco de papel de parede em um ambiente tão prolixo cujos detalhes parecem tão bem pensados. Demorei alguns dias até me dar conta que por causa do terremoto de fevereiro as esquinas da casa se despregaram. E o turismo anda devagar, me explica Alejandro, o uruguaio que junto a sua esposa chilena, Trini, levam sem nenhuma ajuda este ‘hermoso” bed and breakfast no qual dos hospedamos. A Casa de Artilleria é um dos highlights da nossa viagem. A primeira compra da casa data 1906, mas ninguém sabe ao certo quando foi construída. Um casarão que se debruça sobre o Cerro Artillaria e vê passar de minutos e minutos o ascensor que leva e traz chilenos e turistas para o alto do cerro, de onde se pode ver uma pequena pintura cubista mordiscando o pacifico: milhares de containers coloridos a espera de embarque no porto servem de casa para gaivotas interesseiras.

É possível ver leoes marinhos aposentados...

Foi esta vista que fez com que nossa ida a Santiago para uns dias extras na capital fosse adiada e finalmente deletada de nosso roteiro.

E foi meu avistamento de leões marinhos no porto depois de uma volta pela Playa Ancha que lavrou meu amor pela cidade.  Um adendo: chorei como criança ao ver primeiro um velho leão marinho brincar com metade de um peixe na boca em uma cena que, não fosse meu romantismo patológico, seria desagradável. Os leões marinhos hoje não são nem a sombra da colônia que foram. Hoje, os “lobos marinos” avistados no porto são animais aposentados, expulsos da manada por não poder acompanhar o grupo ou com algum problema ou anomalia que os distancia de seus parentes saudáveis. Não importa. Mesmo os “outcasts” e rejeitadinhos dessa espécie são um espetáculo.

 
 

Minha sombra, flores e o ascensor de Artilleria, é tudo tao poético...

Não fossem os enlaces práticos da vida adulta jamais desceríamos dos Cerros. De cima, Valparaíso é uma cidade misteriosa, sinuosa, com ares de perigo e bucolismo, uma contradição que perfaz um caminho cheio de mansões assombradas ou não que sobe a Avenida Gran Bretanha até encontrar as modernas instalações da Universidade e culminar numa dramática praia de pedras negras. E os ascensores são um capitulo a parte. Não me cansava de subir e descer nessas caixinhas de madeira que pareciam tombar sobre os trilhos e faziam estranhos ruídos assustando os turistas.

Valparaíso é nostalgia

É realmente fascinante o fato de que ainda estão em circulação, principalmente depois de saber que, segundo Alejandro, a manutenção é raramente feita e que ele mesmo nunca viu um engenheiro inspecionar estes elevadores que chegam a datar 1880 como ano de nascimento.  

Valparaíso de cerros coloridos

Mas, devo admitir, foi no nível do mar que conhecemos as melhores opções para comer e beber na cidade. Uma visita a cidade não estaria completa

"Eu sei que nao é o que o médico recomendou", mas comer Chorrillana no JJ Cruz é um must!

 sem a melhor chorrillana da cidade. Explico: para mim chilenos estão fascinados com comida de barzinho. É a única explicação. Se não como entender as enorme porções de batatas fritas cujo topo é uma outra montanha de filé a palito cuidadosamente cobertas por uma outra camada de cebola e ovo ( isso quando lingüiça não é adicionada a equação) . Eu sei que não o que o doutor recomendou. Mas, é o que é. E nenhuma visita esta completa sem uma passadinha no beco do J.J Cruz para comer a única iguaria do lugar: vejam só: Chorillanas. E o lugar é uma curiosa caverna cujas bovedas estão cobertas de fotos 3×4 e escritos, fica num bequinho sem saída e absolutamente todo mundo na cidade sabe onde é.

 
 

La Playa: cinematográfico e fantasmagórico

“-Play it san, play as times goes by”. Bem que poderia ser acontecer não em Casablanca , mas no barzinho La Playa. Encontramos este lugar fugindo da chuva. Os ares eram um pouco portenhos e me deu algo de banzo. Meia luz, tango, bonecas assustadoras e um barman com cara de old Hollywood fazem desse lugar um must em Valparaíso. Construído como um barco com direito a convés e bóias, o bar La Playa tem suas paredes cobertas com posters de velhos filmes como The Shinning e um ar meio fantasmagórico e cinematográfico, o que se provou verdadeiro quando nos deram um postal do lugar no qual figura inadvertidamente o rosto do fantasma de uma menina entre as garrafas do bar. O barman nos jura que não é montagem, discutimos a tarde toda sobre isso. Meu veredito é cético. Mas, existe mesmo algo de outro mundo em este lugar. Lamparinas art noveau, cinzeiros de ferro, espelhos manchados de maresia dão ao La Playa um ar Hitchcockiano. Passamos a tarde aí esperando a entrada de Normam Bates.

La Sebastiana, Neruda também se apaixonou por Valparaíso

Neruda não ficou imune ao estranho fascínio que exerce Valparaíso. E em 1961, encontrou uma nova morada no Cerro Florida que batizou de La Sebastiana, em homenagem a seu arquiteto espanhol Sebastián Collado. É talvez a menos dramática das casas do poeta. Não tem o peso emocional de La Chascona, nem a dramaticidade e contraste de Isla Negra, mas é linda com suas janelas espiando o pacifico de cima de um dos mais lindos cerros da cidade. Uma casa feita para entreter convidados, com um humor plausível, La Sebastiana é mais uma testemunha de concreto da imensa personalidade de Neruda. Sua paixão pelos objetos, pelo mar e pela vida. Piratas, pratos, estátuas, murais mais uma vez dão testemunho de Neruda; o arquiteto, o colecionador, o homem apaixonado pelas coisas desse mundo. Não podemos banalizar-la, foi em La Sebastiana escreveu suas mais importantes obras, aquelas que o levariam ao Premio Nobel. “Yo construí la casa. La hice primero de aire. Luego subí en el aire la bandera y la dejé colgada del firmamento, de la estrella, de la claridad y la oscuridad.” Pablo Neruda – fragmento “A La Sebastiana”.

La casa crece y habla,se sostiene en sus pies,

tiene ropa colgada en un andamio,

y como por el mar la primavera

nadando como náyade marina

besa la arena de Valparaíso,

ya no pensemos más: ésta es la casa:

ya todo lo que falta será azul,

lo que ya necesita es florecer.

Y eso es trabajo de la primavera.

 

Serviço:

O blog se chama conexão Buenos Aires, mas essa é uma das melhores dicas que eu vou dar aqui e fica a milhares de kms da Capital Argentina. Casa de Artillería é esse bed and breakfast que mudou nossa estadia em Valparaíso. O quarto, a casa, a localização, a simpatia de Trini e Ale, a vista do porto, os lençóis da cama, tudo vem de um lugar de amor. O preço é mais que justo, cerca de US$ 70 por quarto de casal com vista para o mar. Conforto sem luxo, mas uma vista e uns ares inesquecíveis. Eu penso em voltar porque nada te faz querer deixar este lugar. Embora, se qualifique como albergue não tem nada a ver com o clima de farra e pouco conforto dos Hosteles. É um lugar silencioso, tranqüilo, romântico daqueles que servem de ponto de partida para languidas caminhadas e largos períodos de contemplação da vista.

http://www.artilleria199.cl/

Artilleria 199, Cerro Artilleria, Valparaíso.

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