Gafieira Porteña

1 out
 
 

Ordem , Progresso e Samba: a gente mata saudade com churrascos na laje!

Há uma máxima do jornalismo que se o cachorro morde o homem isso não é notícia. Mas, se o homem morde o cachorro isso sim é notícia. Uma gafieira de samba em Buenos Aires não seria notícia neste blog. Todo país conserva pequenas versões de outros se existe algum fluxo migratório. Em São Paulo há a Liberdade, em Buenos Aires El Barrio Chino, em Nova York existe uma pequena Itália. Por todas grandes metrópoles do mundo exilados se reúnem para matar saudade da pátria distante. Chineses comem Dim Sum em Quebec, russos tomam vodka em Washington, Argentinos bebem mate em Salvador, Irlandeses festejam São Patrick na Espanha e brasileiros fazem churrascos em Buenos Aires. É difícil não cair no clichê dos retirados. Um dia te ataca um banzo de coxinha que não há empanada no mundo que cure. Não tem nada que amenize aquela vontade de comer pastel com caldo de cana. Não há placebo para a saudade de Skol e carne de sol. Aliás, só um solzinho já era matar um pouco dessa saudade.

"Nao deixe o samba morrer, nao deixe o samba acabar..."

Tenho uma grande amiga turca em Buenos Aires que outro dia me confidenciou que seu sonho era que um dia eu a recebesse falando turco. Aparentemente, não há um substantivo para saudade no império otomano, mas ela sente, como todos, as dores e delícias de viver no estrangeiro. E, por causa dessa saudade, que mais cedo o tarde, independente do grau de satisfação com o lugar em que vive, nos encontramos com as situações mais sublimes. Foi a saudade de dançar forró que levou uma amiga a contatar um grupo de samba na Capital. E foi num churrasco de domingo, desses em que o Zeca Pagodinho fica sussurrando ao fundo, que este  grupo de samba apareceu e me deixou boquiaberta. Argentinos, daqueles do tipo de Missiones, Argentinos da gema, assim por dizer. Argentinos cantando e tocando samba e pagode como se estivessem num churrasco numa laje na baixada fluminense. Assim descobri uma gafieira institucionalizada em Baires.Não só ela acontece, por mãos argentinas, como também acontece sempre, todas as quintas para Argentinos. Fica no “trendy” bairro de Palermo (Foynes Bar – Niceto Vega 4984, a partir das 22h30, quintas feiras), a passos da Plaza Armenia, esta Praça onde jovens casais muy argentinos e yuppies vem banhar seus rebentos de sol nos domingos. E acontece como no Brasil, com pandeiro, cuíca, mas sem mulatas. Acontece, da maneira polite Argentina, mas muito do bem feitinho. No telão vão passando as letras, para que os hermanos possam tentar cantar, mas é surpreendente mesmo o repertório dessa gente. É verdade que às vezes flertam perigosamente com o pagode e seu lailaiá insuportável, mas não é nem de perto um pagode mela cueca desses dos amigos do Alexandre Pires.

Versao Brasileira: Argentinos que arrasam no Samba, tocando no nosso churrasco numa laje porteña.

É, em sua maioria, um samba de qualidade de Noel Rosa a Martinho da vida, com participações especiais de Clara Nunes e Bezerra da Silva. Bem tocado, com dedicação e alegria, pelos pandeiros, cuíca e chocalho, tudo no ritmo e com um português quase impecável. Conversando descubro que é mais que um sambinha de quinta-feira é toda uma cena musical com grupos conhecidos e público cativo. O Malandragem, por exemplo,  toca nos domingos em San Telmo (Club Sirah, Balcarce 601). É o Brasil que está “de moda por aqui” com sotaque castelhano, feito com tanto carinho que nos deixa emocionados. Está na hora de olharmos com bons olhos a quem nos quer bem. Viva Perón!

2 Respostas to “Gafieira Porteña”

  1. Vivi 2 de outubro de 2010 às 3:53 AM #

    Ah, Gabi! Me leva, vai? Saudade demais de um sambinha! “E vamos botar água no feijão!”

  2. Camilla 4 de outubro de 2010 às 5:11 PM #

    Parabéns pelo post!
    O samba em Buenos Aires é verdadeiramente uma fina flor.
    Também tenho uma amiga turca… pra ela matar a saudade dela eu ensaio alguns quibes na minha cozinha.
    Acho que elas precisam se conhecer, até porque há poucas pessoas nessa cidades que falando “Taman” quando a responta é “Dale”!

    beijos, e boa semana.

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