Na praça, por Cristina

28 out

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Com temperaturas amenas os fins de tarde de primavera em Buenos Aires se fazem cada dia mais agradáveis.

As pessoas enchem as praças com saudade do sol. Seria assim que a cidade despertaria da reclusão imposta pelo Censo Argentino não fosse a morte súbita de Néstor Kirchner que mudou o roteiro dos portenhos para uma só praça. Quando cheguei a Plaza de Mayo por volta do meio da tarde havia uma pequena multidão que se formava e um silencio esporadicamente interrompido por palmas e choros baixos. O pipoqueiro aproveitava para fazer uns trocados e uma grande fila já se formava para ascender à fachada da Casa Rosada. Ali começavam acumular-se flores e cartas. Uns cem metros antes a polícia já havia instalado um alambrado onde faixas e mensagens de despedida se aglomeravam.Quando o silencio se tornou demasiadamente incomodo as aglomerações de partidários peronistas e kirchneristas começaram a cantar a marcha peronista, um cântico que ia irradiando-se pela praça e que terminava em palmas.

Jornalistas afobados corriam seguidos dos passos confusos de seus câmeras , microfone em punho, abordando os transeuntes mais chorosos. Muita gente trazia os olhos mareados que quando encontravam um abraço deixavam-se molhar por completo. Algumas pessoas tapavam as bocas de incredulidade.  A grande maioria era de gente jovem, seguindo assim até a noite, claro testemunho da força da “juventud kirchnerista”. Como torcidas organizadas os grêmios sindicais indo ingressando á praça um a um sob aplausos dos presentes e cantos  próprios. Por volta das seis da tarde a praça deixava de ser uma alameda salpicada de gente para dar espaço a uma massa homogenia de gente e faixas que se voltava para o palácio presidencial. Muitas das faixas solidarizavam-se com a viúva e outras lembravam um dos maiores ícones da nação: o general Perón.

Evita ganhou um enorme boneco inflável e a pirâmide no centro da praça um enorme cartaz de Kirchner como o personagem de história em quadrinhos, o Eternauta, dando ao espetáculos ares pop arte.

No começo da noite, em uma das cenas mais comoventes da noite, chegaram as vans com as madres de mayo, já velhinhas, com os tradicionais lenços brancos na cabeça, acompanhadas de enorme comoção e da dignidade que lhes é solene. Elas prestavam homenagem ao homem que em um ato de repúdio a ditadura, que por muitos anos assolou o país, retirou os quadros de ditadores da Escuela de Mecánica de la Armada, coisa que não haviam feito seus antecessores democráticos. Muito antes da sapatada que recebeu o presidente norte americano George W. Bush, no Iraque, Kirchner já havia desbancado o mandatário durante a Cumbre de las Américas que se realizou em Mar del Plata, frustando o plano de Bush de implantar a ALCA na região, humilhando Bush que deixou o encontro irritado e brigado com Néstor.

Elegeu democraticamente sua mulher ( embora a Argentina sustente certas tendências nepotistas vide Isabelita Perón e Evita). O corpo de Néstor Kirchner será velado amanhã na sede do governo e   enterrado posteriormente em Calafate, junto aos restos mortais de seu pai. A demonstração que segue neste momento com milhares na Praça de Maio além de homenagem ao ex-presidente falecido na manhã de hoje é testemunho também de apoio popular a sua viúva, atual presidente da Argentina, um apoio que ela precisará nos duros tempos que a esperam. Deixo aqui imagens de uma nação chocada e comovida, impossível ficar imune a consternação coletiva.

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