Todos por Néstor

28 out

A cidade amanheceu com ares de normalidade. Um dia comum de trabalho apesar do luto nacional. O sol, vejam só, brilhando normalmente. Os comércios funcionando, as veias da metrópole, apesar de abertas, pulsantes. No meio da manhã as catracas do metrô já estavam abertas e concediam passagem gratuita a enorme multidão que se juntaria na Plaza de Mayo para o funeral. Nos vagões uma cena me lembrava uma velha fotografia da morte do presidente norte-americano, J.F Kennedy:  todos os passageiros sentados com os jornais abertos com a manchete catastrófica.  Pela primeira vez o senhor da banca não me olhou com curiosidade quando pedi uma edição de cada um dos principais diários, como faço habitualmente.

Pelo primeira vez, na banca de jornal, nao recibi olhadas curiosas do vendedor por comprar todos os jornais

Talvez, nas últimas décadas, não há episódio em que a Argentina se assemelhe tanto aos seus tangos.Talvez poucas vezes estivesse tão perto do ritmo musical trágico que hoje em dia não é nada mais do que o recordo nostálgico dos velhinhos e atração de turistas. Este país tão marcado por mães sem filhos, avós sem netos, desempregados sem teto, viúvas e desaparecidos volta adentrar sua melancolia histórica tão intimamente ligada a sua vida política. Durante todo o dia milhares de pessoas enfrentaram horas de fila ao sol para dar o ultimo adeus a Néstor Kirchner que era velado por sua mulher, filhos e amigos dentro de um salão da Casa Rosada. Cristina permaneceu todo tempo lá, alisando o caixão com suas mãos bem feitas recebendo Mujica, Rafael Correa, Evo Morales, Piñera, entre outros mandatários sul-americanos. Agradeceu ao público que entrava em ondas com a mão no coração e agüentou com dignidade a longa jornada.

As 19h45, um cantor de ópera, vindo da fila aberta ao público, entrou cantando “Ave Maria” agravando o cenário lúgubre.  No público há de tudo, veteranos das Malvinas, loucos, histéricos e até o grupo de deficientes Mundo Alas, que ganharam fama aqui graças a um documentário feito sobre eles. Artistas, apresentadores e celebridades locais também vieram prestar homenagens a Néstor e sua família.  Cristina, quando não agüentava passar incólume a comoção do povo, se levantava ia até a fila que circundava o caixão e cumprimentada um a um os mais emocionados,  tornando a cena ainda mais onírica. O silencio era quebrado por gritos de “fuerza Cristina” enquanto ela acenava em agradecimento.De uma estranha maneira, ao morrer, Néstor Kirchner realizou  seu último grande ato político em favor de sua viúva.

A cidade amanheceu cheia de cartazes de apoio

Seja  qual for sua opinião sobre a presidenta da Argentina, não há opção senão compadecer-se do sofrimento de uma mulher que perdeu seu companheiro de 35 anos e mentor político. É, neste momento, a viúva mais respaldada do sul deste continente, ganhando força política minuto a minuto. Enquanto na Plaza de Mayo milhares de pessoas choram juntas sua orfandade, uma volta por Palermo, onde vivo, revelou nada mais do que cenas cotidianas. No colégio do bairro as crianças saiam fantasiadas graças ao Halloween, velhinhos passeavam a lentos passos pelas ruas, casais tomavam sorvete nas esquinas. Não fossem os pequenos outdoors colocados a cada 50 metros com as fotos de Néstor e Cristina na cidade com os dizeres mais ouvidos nas últimas 48 horas – Fuerza Cristina – , era possível dizer que, pelo menos em Palermo, não morreu ninguém.

No Pg 12, Nestor deseja fuerza

Todos os canais locais e a CNN seguem com a cobertura non stop. Na C5N, uma das principais emissoras locais, as cenas do funeral são acompanhadas de uma música igualmente fúnebre dando ares cinematográficos ä viúva que sustenta olhos escuros e taller, impecável recebeu a Maradona. Chavéz fazia discurso no Aeroparque ( Aeroporto mais próximo da cidade), colunistas políticos já discutiam o destino da nação e os editoriais de La Nación e El Clarín lembravam que os Kirchners são melhores em manter o poder do que governar. Opiniões corajosas que desafiam uma nação profundamente consternada.  No Clarín, as matérias, no entanto, simpatizavam com o falecido, uma ultima ironia já que o ex-presidente  e o jornal o Clarín travaram batalhas históricas. No jornal de esquerda Página 12, um simpático cartoon de Néstor ocupava a toda a capa do diário com os dizeres ‘Fuerza todos”.

Dizem que Néstor morreu na exata hora em que nasceu sessenta anos antes. Que jantou com amigos e que a última imagem dele vivo foi tirada na sexta-feira por um simpático casal em um bar em Calafate, esta minúscula cidade na Província de Santa Cruz onde os Kirchners iam buscar paz nos fins de semana. Era diabético, cardíaco, não agüentava maiores caminhadas, nem uma pelada e que morreu em um segundo. Amanhã Néstor empreende sua última viagem rumo ao sul, onde será enterrado junto ao seu pai. Eu me abstenho de opiniões políticas, mas pelo o que está o centro de Buenos Aires nesse instante, para que Néstor se una ao pai todo uma nação deve aprender a se despedir do seu.  Fuerza Argentina!

Para acessar as notícias em tempo real:

http://www.infobae.com/adjunto/nestorkirchner/C5N_NK.html

5 Respostas to “Todos por Néstor”

  1. Eduardo 28 de outubro de 2010 às 11:55 PM #

    Eramos pocos y parió la abuela. !
    Llegó Lula…

    Bienvenidos a Argentina…

    • conexaobuenosaires 29 de outubro de 2010 às 2:34 PM #

      ‘jajajaajajajajajajaa Edú. Son los absurdos super humanos de esto país que más me encantan. Cada dia me enamoro más de Argentina.

  2. Rebeca Gorender 29 de outubro de 2010 às 12:56 PM #

    Gabi, ontem eu pensei muito nisso… Como os argentinos sabem respeitar as dores da perda. Como o mundo deve olhar um pouco mais para essa nação e aprender que mais vale ter sensibilidade, coração e memória. É verdade também que as vezes passa de endeusarem os que morrem colocando em pedestais e acabam se esquecendo dos defeitos e dos comportamentos nem tão “humanos” assim (meio maniqueísta, não? hehehe). O fato é, pensei nisso se passando no Brasil e não consegui ver tamanha locomoção e respeito com relação ao ser humano, pai, marido, FAMILIA, como vi aqui.

    Obrigada SEMPRE por suas palavras e seus bons textos!

    • conexaobuenosaires 29 de outubro de 2010 às 2:35 PM #

      Beca, é um país de exageros, para o melhor e o pior. Eu confesso que gosto do jeito que eles sentem. É especial estar aqui neste momento, nao é? Aprender. Grata pelas palavras flor.Super beijo.

  3. Alexandre Dantas 29 de outubro de 2010 às 7:28 PM #

    Brilhante texto. A Argentina é mesmo um país impressionante…

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