Buenos Verdes

20 nov

O Jardim Botanico, tarde de ontem

Não sou exatamente um ser da selva de pedra. Em retrospectiva, sou mais um bicho do mato que uma cria da cidade. Quando cheguei a Buenos Aires, para começar a armar minha nova vida aqui, sofri um mínimo ataque de pânico quando vi a Plaza Itália. Nervosa como uma aranha viária, a praça, centro de Palermo, era para mim a representação visual mais palpável do que é uma cidade de 15 milhões de habitantes. Ônibus, hordas de pessoas , escapamentos, ruídos diversos, pistas difíceis de cruzar, mendigos, fizeram com que eu visse ai um lugar meio assombroso, mundo cão, dog eat dog. É engraçado como ao largo do tempo podemos adquirir visões completamente distintas das mesmas coisas. As cidades, conforme as vamos penetrando, vão se transformando com transcorrer do tempo; a Buenos Aires que via quando vim pela primeira no fim dos noventas me parece uma lembrança sonolenta de outra era, como um poema de Borges. A metrópole que encontrei quando cheguei com minha malinha de sonhos no começo do ano também já é distinta da cidade que hoje  chamo de casa com tanta propriedade. E assim vou trocando a roupa de Buenos Aires até o fim de minha estadia. Idolatrando o que me parece mágico, deixando cair na rotina o que já conheço.

Um dos exemplos mais dramáticos disso para mim virou a Plaza Itália.

O Jardim tem 31 obras de arte

 Como hoje moro a apenas três quadras dela, ela deixou o ar sinistro e ameaçador que tinha para mim tornando-se a porta de entrada para minha Buenos Aires verde. Ironias a parte, mostrando que a vida é mesmo uma questão de ponto de vista e ângulo, é por ela que passo quando preciso de ar. O lugar que antes para mim era o arquétipo da metrópole hoje é meu pulmão Cosmopolita. O tédio que é estudar todos os dias por largos períodos de tempo venho superando com a mudança de cenários. Assim, vou constantemente buscando novos lugares para levar para tomar sol meus enormes e enfadonhos textos.  Quando não agüento ver os dias lindos de primavera das janelas dos Cafés, arrasto minha mochilinha e minha resma de textos a basicamente dois Lugares: o Jardim Botânico e os Bosques de Palermo.

Acessivel a todos

Meu roteiro verde começa no Jardim Botânico, entrando pela Avenida Santa Fé.  Com uma sede principal, um herbário, uma biblioteca, 5 invernáculos e 31 obras de arte, o Jardim Botânico de Buenos Aires é uma viagem no tempo. Não fosse o barulho dos ônibus que circulam pelas ocupadas vias ao redor do lugar, seria possível sentir-se em uma dessas novelas de época da Jane Austen. A Argentina tem, sejamos sinceros, certa vocação aristocrática. Fosse por decisão daqueles que possuem as rédeas do país, a Argentina se mudaria para a vizinhança da França. Diferente do Brasil, ainda que conservemos cidades históricas, este país ainda cultiva em sua vida cotidiana certo desejo europeu. Está na arquitetura, na literatura nos esportes e até em certos hábitos argentinos. Embora isso se reverta às vezes em certa arrogância, mesmo que eu ache que argentinos são muito menos soberbos do que me pintaram, o melhor da Europa aqui é aproveitar as estruturas que esta onda européia deixou. O Jardim Botânico é um desses casos. É algo sublime aproveitar uma tarde durante a semana para ler aí acompanhada apenas de alguns das centenas de gatos que habitam o local.

O Jardim e seus habitantes

Reza a lenda que os gatos são deixados em memórias dos mortos, mas sinceramente são sei se isso é mito urbano ou não. Não gosto muito de pensar nisso quando estou sozinha ai. A controvérsia dos gatos não acaba por ai: blogs acusam o governo de haver exterminado 1.500 gatos a pauladas, o jornal La Nación chega a pedir uma solução para o problema e lançam-se campanhas na internet para a adoção dos bichanos. Enquanto o dilema dos gatos sinistrinhos do Jardín Botánico de Buenos Aires não se resolve eu continuo freqüentando o lugar desacompanhada de comida, pois outra lenda do lugar é que os gatos atacam frente à presença de comida. Verdades e mitos a parte, o lugar é um pequeno Oasis urbano.

Bosques de Palermo, meu segundo lar

 Seguindo a Av. Sarmiento, onde mais de 45 mil pessoas, cantaram “Força Estranha” junto a Caetano Veloso por ocasião da Feira do Livro, em um dos momentos mais arrepiantes que já vi por aqui, passando pela cerca viva do zoológico onde com sorte é possível ver flamingos banhando-se ao sol se chega aos Bosques de Palermo, um retalho verde na enorme colcha de concreto que se entende a beira do Rio Prata. Isso é Buenos Aires, com suas rua fechando-se sobre a pista e dando as costas á água. Embora, às vezes fique tão cansada da caminhada até os Bosques que o único que faça é me jogar como um saco de batatas sobre a grama na beira do lago, há muito para ver. Estive nos últimos dias no Rosedal, um frondoso jardim de rosas multicoloridas, e estão todas abertas dando ares vitorianos a

Fim de tarde nos Bosques, meu jardim secreto...

 Palermo. Por cerca de R$ 8 reais é possível alugar uma bicicleta ou patins e percorrer boa parte do parque e da Avenida Libertador. Se seu negócio é sombra e água fresca aqui também é seu lugar. Nos fins de semana fica cheio de famílias que terminam o passeio em choripan (literalmene pao com linguiça) , ainda sim é possível achar um cantinho de paz entre os patos ou ir andando até o planetário que nas noites de lua dispõe de lunetas para a observação da lua. Bienvenidos a mi Buenos Aires verde.

Viva Zapata –  Meus amigos da embaixada mexicana me alertaram e eu prometi deixar aqui o convite. Amanha é dia de Bosque. De meio dia até as oito da noite a Embaixada do México e governo argentino promovem um festival mexicano comemorando o Bicentenário da Independência e cem anos da revolução mexicana com direito a música ( meus queridinhos Los Paquitos tocam!) , comidinhas e arte. Com as altas temperaturas que já chegaram é a minha dica cultural para o sábado de fim de semana largo na capital. Deixo o convite aqui, as atividades comecam as 12h no Rosedal.

Uma resposta to “Buenos Verdes”

  1. Vivi 20 de novembro de 2010 às 2:42 AM #

    Se vc se cansar no meio do caminho pros bosques, pare para um café no Café del Botânico, na Santa Fé, esquina com a República Arabe Siria, de frente o Botânico. Maravillosas facturas! Dessas que nos fazem engordar 4kg ao mês como se fossem 400g. Adoro ali. Pra mim é meio nostálgico, vou desde quando não morava aqui! E, sobre os gatos, eu acho que eles são meio sinistros. Outro dia, passando pelo Botânico,estavam como numa fila indiana, um atrás do outro, com aquele olhar parado…Eu, hein!

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