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Na cama com um genocida

31 ago

“ Ate agora o tribunal de Haia nao me chamou.”

“Se você vai para a cama com um genocida, isso não quer dizer que você sai com 30 mil desaparecidos”.

               (Graciela Alfano)

De bafao em Bafao assim caminha a Argentina. Pode ser que os escandalos sejam universais, mas na Argentina eles ganham ares oniricos. A televisao Argentina eh a televisao Argentina. Perguntam-me alguns leitores sobre os outros países. As pessoas me falam que eh absurda a TV brasileira. E minha resposta eh sempre: nao estou comparando. E sinceramente, bato meu pe: A televisao argentina eh a televisao argentina. Eu sei que temos Panico, Mulher Melancia, Gugu e tantos outros programas intelectualmente prejudicados, tanto quanto qualquer outro pais.

Mas, imagino que nenhum outro lugar do mundo tenha a predilecao ao melodrama como este país. Nao eh so o melodrama. Eu sei que existem novelas mexicanas, tragedias Gregas, melancolia russa, histeria Israelense, supremacia norte americana. Mas ninguem protesta, se queixa, esnoba e chora como um argentino. Nenhuma TV do mundo traz tantas maes chorando, detalhes sordidos, crimes passionais e declaroes candidas como a programacao hermana. E se traz, nao faz com tanto afinco.

Meu querido ditador...

E como nao podemos passar uma so semaninha sem que o mundo esteja em Armagedon perpetuo com marchas funebres e maes chorando nos noticiarios sob jingles musicais morbidos, agora precisamos exumar diariamente o cadaver da ditadura em episodios tragi-comicos cuja natureza insolita transcende a razao. Mas, nao eh a toa. Na Argentina se diz o que quer e se escuta o que nao quer. E foi assim que a Suzana Vieira da Argentina, Graciela Alfano, dancou.

Dormir com um genocida nao quer dizer que esteja dormindo com as 30 mil pessoas assassinada pela ditadura da qual ele fez parte.

Dinossauro da televisao argentina, Graciela Alfano, celebridade estilo ex-vedete, ex- miss, apresentadora, atriz e todos os cliches, hoje eh mais uma jurada num dos programas mais calientes da televisao daqui. Bailando por un Sueño trancende todas as barreiras do bom gosto, destituindo-as uma a uma em programa polemico recheado de bundas, brigas e controversia transformando-o em um dos shows com maior audiencia da tv. O time de “estrelas” de jurados dos numeros de danca estao mais para filme de horror que programa de variedades: mulheres semi travestidas, mumias de 180 anos pagando de gatinhas e bichinhas extragavantes compoem o exercito do mal gosto.

No ano passado: a familia Adams de Bailando por un Sueño.

Nesta familia Adams da televisao Argentina esta Graciela Alfano. Nas ultimas semanas, ela se conveteu no epicentro de um escandalo que trouxe a tona alguns dos cadaveres emocionais da sangrenta ditadura argentina. No ano passado, se deu a conhecer o romance da personalidade televisiva com um dos maiores genocidas da ditadura, Eduardo Massera gracas a um relatorio da policia secreta chilena. Um dos piores escroques da historia argentina, Massera foi responsavel por centenas de execucoes, desaparecimentos, torturas e humilhacoes sendo um dos autores “intelectuais” do sistema que perseguiu sem dó nem piedade todos opositores a “sociedade crista ocidental” durante a ditadura argentina.

Alfano: Massera seu genocida no cavalo branco.

Massera morreu recentemente demente e condenado a prisao perpetua por suas atrocidades, mas disfrutou bastante sua vida de escroque militar rebecendo incluso um induto do seu colega de profissao de vilao, Carlos Menem. Enquanto Massera arde no fogo do inferno, na terra seu ex-affair continua gerando polemica.

Alfano, uma flor de pessoa.

Ha algumas semanas em video em que Graciela aparece languidamente segurando uma vibora albina e destilando ela mesma o veneno em uma entrevista sacudiu a Argentina. Eu sei que uma imagem fala mais que mil palavras, mas para o os “non hispano hablantes” deixo aqui algumas frases. Entre os melhores momentos da entrevista Graciela, quando perguntada sobre sua suposta relacao com o genocida, responde:

– “Se voce vai para a cama com um genocida, isso nao quer dizer que voce sai com 30 mil desaparecidos”. Diz que eh mulher desde os 21 e que ninguem tem a ver com sua vida sexual. Vira os olhinhos para dizer que, até agora, nao foi intimada pelo tribunal de Haia.  Pule para 1:30 para escutar Graciela e sua diarreia verbal:

 

Nao bastasse o estrago que Alfano fez sozinha com suas declaracoes, nas semanas seguintes, com os esqueletos da ditadura comecando a ser desenterrados, emergiram tambem alegacoes de que a ex vedete havia recebido bens de desaparecidos, como jurou ser verdade a filha do seguranca de Massera.

“Voce acha que eh a unica?”

Para jogar mais merd”#$%&/()= no ventilador de Alfano, a estoria contada pela mulher de um desaparecido complicou ainda mais a situacao da ex vedete que, a esta altura ja estava negando seu petit affair com Massera.

Esta digna senhora narra o insolito encontro que teve com a atriz quando foi reclamar com General Massera o desaparecimento de seu marido. Diz ter encontrado a vedete ai, de sainha, derretida no sofa do ditador. Conta que foi a propria atriz que a dispensou dizendo que o militar estava muito ocupado. “ Mas, senhora se trata do desaparecimento do meu marido”, a senhora replicou. “ Voce acha que eh a unica?”, teria respondido Graciela Alfano.

“O que voce estava fazendo durante a cruel ditatura militar?”, parece ser a pergunta no ar nos ultimos tempos. Contra, a favor ou indiferente, com o transcorrer do tempo, todos sao revolucionarios de esquerda. Mas, a verdade eh que Argentina continua exumando emocionalmente sua ditadura e muitas autopsias prometem deixar futuros mortos.

Aqui um pouquinho das trinta mil pessoas para os quais Graciela Alfano nao deu:

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Já vai tarde

9 nov

Vire e mexe eu me pego pensando em fazer um post sobre a ditadura militar na Argentina. Nós também tivemos uma ditadura dureza, mas a deles alcançou requintes inimagináveis de crueldade. Tenho os transcritos de umas perguntas que fiz a vice presidenta da Associação Abuelas de Mayo que ainda não ousei publicar. Crianças adbuzidas, pessoas atiradas de aviões no Rio Del Plata, covas coletivas, torturas e todo tipo de atrocidade estão no currículo desses nobres militares. Argentinos lutam permanentemente por manter viva a recordação do calvário pelo qual passaram e as mães sem filhos, avós sem netos e filhos sem país então sempre dispostos a manter o fogo dessa memória acessa. Continuo me emocionando quando vejo na calçada a pequena placa que indica que ali alguém desapareceu sem deixar rastros. São elas a lembrança de que a democracia é daqueles que morreram por ela e a liberdade mais um direito adquirido que uma característica inerente a vida. Por isso, acho um barato quando, nesse propósito de nunca esquecer, eles continuam celebrando as mazelas de seus ex ditadores. Um dos poucos países que julga seus torturadores, a Argentina tem feito o esforço para penalizar seus verdugos. Foi assim que morreu de velho ontem um dos piores ditadores da história Argentina, Eduardo Massera, a quem o jornal Página 12 chama de “Máquina de Matar” e colunistas o descreveram como o “Mengele” da ditadura Argentina. Emilio Eduardo Massera tinha um currículo de vilão impressionante: roubo, assassinato, falsidade ideológica, tortura, seqüestro, entre boas ações estão entre seus crimes. Crimes pelos quais foi condenado, posteriormente anistiado por Menem ( porque isso não me surpreende?) e finalmente posto em prisão preventiva em 1998.

A matéria é excelente, mas o melhor mesmo, para não fugir a regra, é a capa que mostra o jornal genial e genioso que é o Página 12. Na edição desta manhã, os comentaristas super opinativos do canal C5n (o que nem sempre é uma vantagem) já comemoravam efusivamente a notícia. Mas, é sempre o Página 12 que ultimamente tem dito o que todo mundo pensa e tem reservas em dizer . “El infierno es poco”, ostentava a manchete. Já vai tarde!