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Aconcagua: A Sentinela de Pedra

21 ago
 
 

Aconcagua, minha montanha magica

Criado pela placa de Nazca, extendendo-se em imponentes 6.962 metros de altura, a Sentinela de Pedra, como era chamada pelos Incas, ou Aconcagua, eh a montanha mais alta do mundo fora da Asia. Eh tambem objeto de desejo de alpinistas que desejam colocar em seu curriculo os 7 picos do mundo, entre eles esta inigualavel montanha andina. Existem varias vias de subida com diferentes graus de dificuldade. Embora, o cume pertenca tecnicamente a Argentina, o monte eh divido entre a provincia de Mendoza, na Argentina e o Chile.

Rio Mendoza: memoria de degelo

O imponente caminho ate o cerro do Aconcagua eh uma preliminar do que te espera la emcima aos 4.300 metros de altura trilhando o Sistema Crisro Redentor que chega ate o pais vizinho. Seguindo por sinuosas estradas, cortejando abismos e colunas de roca, vamos todo o tempo seguindo as pistas do rio Mendoza. Longe de ser caudaloso, o Rio Mendoza nao eh perene, mas se nao fosse sua memoria de degelo poderia facilmente esconder-se da paisagem deixando apenas a marca de seu leito sobre o cascalho beje que dorme no fundo dos vales. Sua agua, mesmo no verao, nao alcanca mais que a altura do joelho, mas sua persistencia andida faz com que transcorra kilometros de cordilheira como um anel selvagem que lambe os pes das montanhas. Foi aqui que o filme Sete Anos no Tibet foi gravado e eh aqui que muitos argentinos vem esquiar e muitos aventureiros lancar sua sorte montanha acima. O cemiterio de andinistas, que fica ha alguns kilometros do cerro, eh a amarga lembranca da volatividade da montanha.

Fina estetica

Alem do rio, dez tuneis marcam o caminho para o Cerro. Os esqueletos do que um dia foi o caminho de trem que cruzava a cordilheira ligando Chile e Argentina tambem bordeiam a estrada. Lembrancas de outro tempo, o trem nao funciona mais, eh um cadaver de ferro que nos remete perigosamente a fome das montanhas. Uma pena, se fosse reativado seria talvez um dos trajetos mais bonitos do mundo, pois seus trilhos aproximam-se mais da carne das montanhas do que a estrada que corre junto a ela.

A subida vale cada instante...

 Partindo de Mendoza, o passeio entitulado Alta Montanha eh um recorrido de 200km por cenarios estonteantes permeados por beleza e vertigem. Tudo comeca quando saimos da rota 40, o equivalente a rota 66 argentina, para entrar na rota rural 7 e de ai comecar o ascenso pelos viniculas de Lujan de Cuyo ate a precordilheira. Eh uma overdose de montanhas que residem em vales de pedra ou nevados e ensinuan-se sobre a estrada ate o Dique Potrerillos. Dentro da fina estetica da natureza nao ha nada mais lindo do que agua e montanhas juntos.

A cem kilometros da capital da provincia esta a languida vila de Uspallata, onde eh preciso alugar calcas termicas e botas de neve para seguir viagem.

Uspallata: Algo ao estilo Bagdad Cafe...

Uspallata eh uma dessas cidades nos aposentos posteriores do mundo, onde matilhas de caes passeiam preguicosamente pelas ruas, bandeiras rasgadas flamulam no alto de mastros e fortes ventos varrem seu teto sob o olhar atendo das montanhas. Existem relogios sem ponteiros em Uspallata e, nao fosse o fato de servir de passagem para o cerro, talvez convitiria-se um dia numa dessas cidades fantasmas que padeceram de inospitas mazelas como o frio e a distancia. Eh a maior cidade antes do Aconguagua. Depois pequenas villas como a de Picheuta, Polvaredas e Punta de Vacas vao nos mostrando o caminho ate a tradicional estacao de esqui Los Penitentes a 167 km de Mendoza.

A ponte Inca, caminho usado por eles para cruzar a regiao chilena

O cerro com o mirador para o Aconcagua fica a 3km da Ponte Inca, uma passagem acobreada de lama mostarda e gelo que precipita-se sobre as aguas termais que os Incas creiam ter propriadades curativas. Do mirador vale a pena ficar em silencio ouvindo estalactites atirando-se nas aguas.

 

O cerro do Aconcagua eh zona de fronteira

Bases militares e aduaneiras nos lembram quando em vez que trata-se de uma zona de fronteira, com toda a liturgia que zonas limitrofes requisitam.O Aconcagua desponta logo depois entre montanhas que parecem muito mais altas mais nao sao. Eh um plato negro varrido eternamente por uma vassoura invisivel que atira po branco para os lados. Sua presenca no entanto eh inegavel. Mae de todas as montanhas deste continente, matriarca de 280 milhoes de anos, sentinela dos Andes. E esse silencio do gelo como se tudo comecasse e terminasse ali.

Tem gente que coleciona selos, eu gosto de montanhas...

Frente ai cerro, eu nao havia escalado o Aconcagua, o Aconcagua que me escalou. Dentro de sua catedral, de rocha e neve, eu e ele conversavamos geracoes . Eh claro que atrai tanta gente ao seu bojo alto, sabe-se la qual sera a gloria de transpor-lo. O descenco de 4,300 nao foi facil. Na descida lembrei que amo as montanhas, mas nao necesariamente esta reciproca eh verdadeira. Ja tem 4 horas que descemos e os bolsos de ar nos ouvidos a dor de cabeca nao cedem. Fiquei esse tempo todo surda, trazendo comigo aquele silencio. Parece que eu ja sai da montanha, mas agora a montanha quer sair de mim.

 

 

Servico

As excursoes para a Alta Montanha custam em media 65 reais, saem cedo dos hoteis, por volta das 7h30, retornando a noite. Valem cada centavo. Existem mais empresas que fazem este tipo de excursao que montanhas nos Andes. Uma observacao: se voce sofre de sinusite ou problemas de pressao e ouvido, como eu, prepare-se com antecedencia. A descida eh muito rapida e bem dura. Leve seu chiclete, protetor de ouvidos, remedio para dor de cabeca. Nem todo mundo reage bem a altitude.

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Mendoza: Decance avec Elegance

15 ago

Nada te prepara para os Andes...

Minhas previsoes se confirmaram. Esta manha quando me levantei  trazia comigo minha primeira ressaca mendocina.  Nao sei se foram os ares da montanha ou as jarras de vinho e, posteriormente o Fernet, mas eu fiz da jaca uma pantufa. Tudo comecou com um jantar super inocente nessa Pulperia incrivel, chamada El Palenque (Av Villanueva Aristides 287),  onde comemos as melhores batatas fritas e empanadas que ja comi na vida.

Se montanha eh sua paixao, Mendoza eh seu lugar

Alias, Mendoza esta batendo recordes com frequencia. Soh hoje, ja nos olhamos umas dez vezes para dizer “ eh o melhor que ja comi, que ja bebi, que ja vi”. O penguino, uma jarrinha em forma de Penguim muito tradicional na argentina, que normalmente traz o vinho da casa, entrou nesse Gabi’s book of records tambem.  E foi assim que minha ressaca de hoje comecou ontem. Encorajada pelo o vinho, resolvi alargar a noite no bar que os meninos do albergue sugeriram: Por Aca bar. Mendoza esta cheia de duplos sentidos. Era o comeco do meu fim porque o alcool, antes de matar, humilha.

Paisagens de Mendoza sao liricas...

Existe inegavelmente um climinha de alta montanha em Mendoza diificil de explicar. Ja vivi sensacoes semelhantes em lugares que sao ponto de partida para expedicoes e esportes radicais. A impressao eh de festa no campo base. Alpinistas, turistas e locais se misturam e criam estes ares de montanha club social que, em Mendoza, se estende por toda a movimentada rua Aristides Villanueva.  

Alta montanha social club

O tal do “ boliche” ( boates e lugares de diversao noturna em geral se chamam assim na Argentina) tinha uma trilha sonora de arrebentar. Comecou com um pouco de clima festa na High School, mas logo uma faixa etaria mas adequada tomou conta da pista. Dancei todo tempo ao lado de uma parede que tinha um Kurt Cobain em tamanho real festido de cheer leader. I know it’s only rock n roll but I like it!

Termas de Caucheta, foi preciso coragem para nos unirmos a esse pessoal ai

Como ja haviamos combinado, resolvemos levar a cabo o plano de boiar o dia todo nas Termas Caucheta. Essa eh minha primeira grande dica. As termas de caucheta consistem em lindissimas piscinas de pedra com agua borbulhante termal em um cenario estonteante, perigosamente beirando o abismo, e cortejando de perto pontudas montanhas, que  parecem que vao se derramar no vazio. Ha piscinas dentro e fora. Foi preciso tirar coragem da minha reserva de bravura para entrar nas piscinas abertas, mas nao ha nada que se compare a boiar numa piscina quentinha a poucos metros de uma montanha nevada emoldurada por um profundo vale invernal –  desses pintados desses tons sutis de cinza e beje. Se soubesse que havia este lugar, teria entrado ha tempos na minha “top coisas a se fazer nessa vida”. Como o destino de todas piscinas abertas ao publico parece sempre ser o de afarofar-se, existe uma leve tendencia a isso nas piscinas internas das Termas. Mas, vi o capricho dos funcionarios zelar pelo lugar de maneira classuda, achei digno. Decadence avec Elegance.        

Cacheuta: a vista

Pegamos um onibus comum do terminal de Mendoza pela bagatela de 5 reais ida e volta. A viagem dura aproximadamente uma hora. Mas, nao recomendo no inverno. Nao tem calefacao e na volta tive caimbras devido ao frio no interior do onibus. Alias, o frio eh uma  coisa que nao parei de sentir desde que cheguei. Ja nao lembro o que eh sentir calor.

O melhor lugar para se ter uma ressaca...

De maneira maior ou menor, estou sempre com frio por aqui. Vale a pena investir no modelito boneco de neve para nao passar de amador como eu. No caminho, vinha pensando como apesar da intensa vida noturna, Mendoza nao tinha muitos atrativos e talvez tenha me adiantando ao marcar tantos dias na cidade em meu apertado calendario quando a paisagem me deu um tapa de luva. Montanhas sao o desejo de megalomania da natureza. E eu, ja disse aqui varias vezes, sou loucas por ela. Mas, nada te prepara para dar de cara com uma parede de pedra que perfura o ceu em formas tao variadas e soberanas que nao te deixam outra opcao senao pensar dentro de niveis distintos de consciencia que a natureza eh de onde o homem veio e para onde ele vai. Eram dezenas de montanhas intercaladas por cenas natalinas, ternas, pequenas chamines lancando silenciosamente fumaca para fora de casebres, encostas cobertas de neve, arvores testemunhando o vento, tudo em uma paleta de cores que jamais seria capaz de descrever. Depois de boiar umas horinhas, fomos explorar a regiao, e vejam soh,  comer a melhor carne que ja comi na Argentina na Parilla que fica a poucos metros da entrada das termas. Vai pro recorde.

" Eram dezenas de montanhas intercaladas por cenas natalinas, ternas, pequenas chamines lancando silenciosamente fumaca para fora de casebres, encostas cobertas de neve, arvores testemunhando o vento, tudo em uma paleta de cores que jamais seria capaz de descrever."

 Nos divertimos na ponte pencil que se extende por cima de um rio no fundo de um vale.

A ponte e o vale

 “ Uma ponte pencil que se extende por cima de um rio no fundo de um vale” dispensa outras observacoes, adjetivos e parabolas. Eh simplesmente lindo. A volta foi dolorasamente fria, vim consolada pelas montanhas ate o anoitecer, depois nos deixaram a merce do clima, inospito. Mendoza eh, neste noite de inverno, um sonho com um pouco de elegancia e decadencia, na medida da certa, do jeitinho que eu gosto.