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Noches Armenias

23 mar

 Para chegar à lista do que ha para comer e beber no cardápio é preciso atravessar pelo menos umas dez paginas de

Meio Casamento Grego, Meio Clube da Lua, meio bingo, o jantar da Uniao Armenia de Buenos Aires eh um happening no bairro!

publicidade da comunidade. A barbearia de fulaninho, a loja de bijuteria de cicrana, o negocio de molduras de Jorge, a agencia de viagens de Florência.Para achar o edifício é preciso perguntar ao porteiro dos edificios vizinhos. Para chegar ao enorme salão onde se serve o jantar é preciso descer dois lances de escada.  Talvez seja o clima de bairro, de clube, de bingo que tenha me inebriado, algo de Godfather armênio. Mas, ha algun tempo tenho um programa favorito as sextas feiras. Dessa vez, eu prometo nao comer ate a tampa e voltar para casa caminhando sob uma sinfonia de ” ai & ui” e ficar depois como uma jibóia que comeu uma capivara, digerindo o jantar por semanas. Vou me comportar. Eu sempre me faço promessas vãs. O jantar na Sociedade Armena acontece, religiosamente, todas as sextas feiras. Cozinham as mães, servem os filhos. Come a gente que descobriu este segredo em Buenos Aires. Eu descobri este lugar porque sou uma intrépida bloggeira e leio tudo que me cai nas mãos. Desde então tenho este programa sextas pela noite ( tambem aos sabados, mas como sou uma senhora cheia de manias me habituei a ir nas sextas). É uma benção e uma praga, pois arruína qualquer esqueminha noturno pos jantar, mas é o que me mantém dormindo relativamente cedo para estar acordada nas manhas de sábado, quando tenho aula onde Judas perdeu as botas. Desde então, venho organizando pequenas excursões de amigos para lá. A desculpa é levá-los a um lugar diferente, mas a verdade é que preciso de companhia para meu banquete armênia quando os mais próximos ja enjoaram de minha obsessão mediterrânea.

O cenario, a decoracao kitch e o clima eh meio como do filme O Casamento Grego

O lugar me lembra este filme do qual participou o Tony Ramos local ( com as devidas reservas e diferenças capilares, compara em termos de popularidade apenas), Ricardo Darin, o Clube da Lua. Um misto de loucura entranhada em cada unidade de bairro e tradicao que troppo me agrada! Existe, uma vez que lentamente abandonamos nosso avatar de turista, uma vida endógena de barrio em Buenos Aires, é um climinha de vizinhança, com uma aura de domingo no parque, com a presença familiar dos mais velhos e a frescura dos bebes que correm erraticamente pelos salões e festas da classe media. Depois de duas vezes que você vai a um lugar já passa a ser cumprimentado pelo nome e a chamar seu garçom pelo nome. É a cidade que sente saudade da província, a metrópole em seus bolsões de bucolismo.

Nao sei muito bem porque mas me lembrou o Clube da Lua, filmao!

Quando eu conto os pratos para minha amiga turca, que não vai porque tem medo de ser hostilizada dada a historia animosidade entre turcos e armênios, ela me diz ” mas manti eh turco!”.

Quando lhe falo das dancinhas que acontecem todas as ocasiões quando no meio do jantar os estudantes – garçons

Eh comer e depois ir para a casa como uma jiboia que engoliu uma capivara!

 fazem uma animada apresentação de quinze minutos, ela me diz que são definitivamente danças turcas. Eu lhe digo que vou meter-ta dentro de um grupo de brasileiros e ninguém vai reconhece-la turca, fulaninha da silva, eu lhe chamo. Ela saliva quando lhe falo dos shish kebabs, das berinjelas ( porque são loucos por elas), do yogurt e baklavas e ela morde seu lábio inferior em delírio nostálgico. E é definitivamente a melhor comida ” árabe” que já comi; ficando claro que chamo de ” árabe” para que meus leitores identifiquem que tipo de comida que é.

A certa altura esse homem com cara de dono de loja de Swarma, com os últimos botões da camisa abertas deixando a mostra um grosso cordão de ouro, nos pergunta: ” Algo para anunciar? Aniversários, bodas de ouro, celebrações, formaturas, negócios?”. É o momento que nos entreolhamos e dizemos: ” No, nada” e esperamos pelos os próximos vinte minutos de comemorações na mesa 70, aniversario na mesa 33, noivado na mesa 15 e tantas outras comunicações do ” Armenian times” em Buenos Aires.

Comida de deixarqualquer outra na chaoun!!!!!

A comida é boa e barata e, se alguém tiver um espírito aventureiro, é possível, por 20 pesitos a mais, ler a sorte na borra de café. Depois, é voltar para casa e por a pança porque o máximo de after depois desse jantar é um filminho acompanhado de uma caixa de baklavas, sim porque sobremesas para levar são um must.  Provincianismo e metrópole se misturam numa noite meio Casamento Grego encontra Perfume de Mulher, vale a pena conferir e esbaldar-se armenian style! Lembrei-me do unico personagem armenio das novelas brasileiras, a Dona Armenia da Rainha da Sucata. E vou te contar que esse jantar colocar qualquer outro jantar etnico da cidade na chaoun!

Servico:

 Unión General Armenia de Beneficencia ( Armenia, 1322)

http://www.ugab.org.ar/site/

Reservas:

4773 2820

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Nós 4 e Dois Labradores

28 jan

 

Conheci o Fábio Nagel da maneira que se conhece a maioria das pessoas em Buenos Aires: de forma inusitada. Estava parada semi boquiaberta de frente ao mural de grafite que a vista da minha janela estava ganhando e ele estava de câmera em punho filmando o trabalho dos meninos que vieram por ocasião de uma mostra no Centro Cultural da Espanha. Não demorou muito começamos a conversar e descobrimos que éramos brasileiros, do ramo de comunicação e apaixonados por Buenos Aires. Ele me contou que veio a Capital, respirar novos ares com a família, mulher, filhos e labradores. Ontem, me mandou um vídeo que fez com sua tripulaçao que é pra lá de bacana. Um testemunho de amor á cidade, pequeno relato dos lugares que viu e esteve com sua trupe e uma excelente overview de alguns dos lugares e personagens mais emblemáticos de Buenos Aires. Vale muito à pena assistir. Obrigada a Fábio Nagel e sua família. No vídeo estão alguns dos lugares que eu adoro na cidade, como o Bodegón que ficava praticamente na esquina do meu apartamento, O Preferido de Palermo, o Palácio das Águas Corrientes ( meu antigo quintal de casa) e, nas cenas finais, meu bequinho da Rua Viamonte sendo grafitado. Muito bom!

Nós sempre teremos Baires

11 jan

Um mês e cinco dias longe de Buenos Aires e 2010 me parece um sonho. Parece que nunca saí de Brasília e que não estive enfiada até o pescoço na argentinidade sorvendo cada gota de Argentina que se derramou em mim como uma sede inesgotável. Quando nos encontramos por aqui, os candangos que se refugiaram no ano passado de Buenos Aires, falamos dessa sensação onírica de que Buenos Aires pertence a essa dimensão paralela de vida; como se ela se abrisse como uma mariposa em duas asas independentes flutuando uma independente da outra. Sentimos saudade como um navio sente do porto, mas como se soubéssemos que a vocação do barco é sempre o mar. Como se Buenos Aires fosse uma cidade sonâmbula e suspensa à espera de nosso regresso.Ninguem sabe muito bem o que fazer com ela, só que não a podemos deixar agora. Não agora. Em Brasília, sinto uma falta enorme da mobilidade de Buenos Aires e fico me lembrando que no mês antes de vir, ainda que soubesse que seria por pouco tempo, passei todo me despedindo da cidade andando como louca para cima e para baixo, com uma agonia nas pernas que não cessava, cruzando a Santa Fé do Retiro até a Plaza Itália  com uma vontade incrível de rua, guardando os cheiros na narina, as arvores na retina, espalmando os pilotis dos prédios como se contivessem uma mensagem secreta em braile, pensando seriamente na vida como se ela tivesse que ser desenterrada dos paralelepípedos de pedra das avenidas. Eu sempre olhei Buenos Aires, todos os dias, com olhos de última vez. E sempre agradeci os dias límpidos como quem sobe as escadarias do Bonfim pagando promessa.

No Brasil, quando vez, vem alguém contar de uma visita qualquer a cidade, da paixão que tem pela capital enquanto eu vou emendando: “ – Ah, Buenos Aires, ela é minha paixão”.  O que sabemos, isso é fato, que a Buenos Aires do ano passado não será a mesma quando voltarmos. Acabaram as aulas do mestrado embora me reste a tese, não somos mais tão visita como éramos, já sabemos mais dela do que ela de nós. Todo mundo falando espanhol perfeito com um indelegável sotaque portenho e um “que sé yo” de hibridez Argentina-Brasil  que nos transforma em um produto meio transgênico. Sentimos falta de encontrar o Jack Sparrow por aí. Essa figura coringa que circula pelos quatro cantos da cidade vestido e agindo como um pirata do Caribe e que nos arrancava risadas mágicas quando em vez quando nos encontrávamos mais distraídos e nos lembrava de que em Buenos Aires quase que não se vive, se fica encantado. Buenos Aires te acontecia sempre que você saía nela. Era por os pés na rua para que as figuras saltassem das esquinas, os amores, as situações deliciosamente inusitadas. Era a cidade se intrometendo da melhor maneira possível.

E da ausência de problemas reais como me lembrou uma amiga argentina quando eu lhe dizia,

E o diabo de uma culpa de sermos tao felizes...

 arrancando os cabelos, que eu não sabia como chegar para os três compromissos noturnos que tinha e ela me respondeu com um argumento que deixou pensativa por semanas: “Gáby, te das cuenta que eso no es um problema real?”. Em 2010, não tivemos doenças, não nos faltou dinheiro, não nos machucamos com coisas irrelevantes, vivemos de parque em parque, de tango em tango, de festa em festa, como se não houvesse amanha, como hospedes de uma novela de Proust, Hemingway, F. Scott Fitzgerald, sendo aqueles personagens que vivem em cidades de artistas, dançando jazz e sorvendo champagne. Tivemos inúmeras conversas sobre a culpa que sentíamos por sermos tão felizes, como se houvesse um preço inexorável pela felicidade, uma desgraça a espreita, uma fúria dos deuses invejosos do Olímpio por zombarmos do destino oscilante de toda a gente.

Conhecemos argentinos que crêem que viemos do paraíso, totalmente ignorantes das mazelas brasileiras, curiosos do nosso cheiro de terra, de nossa abertura á costa, invejosos de nossa alegria. Nós lhes contamos do bom e do ruim, do amor pela terra deles, do essencial que era certa melancolia, do que viemos buscar em sua comarca sem saber muito bem o que era. Eu aprendi a ir a Buenos Aires quando preciso de um pensamento bom. Sabendo que muita coisa desandou desde então. Que muito do mágico desfaleceu quando eu cheguei aqui. Lembrei o que eram problemas reais, perdas e danos e usei Baires como meu pequeno Éden mental quando preciso de um lugar quentinho para ir dentro. Lembrei mais uma fez da minha fixação por melosos clássicos do cinema como o filme Casablanca que não consigo parar de amar. E da frase final dos amantes que por circunstâncias da vida não podem ficar juntos. “We’ll always have Paris”. Eu escuto um jazz baixinho, as Time goes By…

E pensar, no matter what, nós sempre teremos Baires…

Wi Fi World

29 nov

 Eu sei que isso vai soar super geek, mas eu sonho com um mundo todo Wi Fi zone. Pronto falei. Depois de passar muitos dias lindos de sol enfurnada em cafés enquanto as pessoas espreguiçavam-se nas praças como gatos felizes sob o sol – eu presa a minha conexão – vinha alimentando esse sonho. Se você mora longe de sua família, ou trabalha e estuda incessantemente como eu, entende do que eu estou falando. Com as temperaturas subindo, os dias ensolarados chegando depois de um longo inverno, Buenos Aires volta a ser uma cidade mais agradável do lado de fora que de dentro dos lugares. Apesar do calor, as pessoas vão encontrando mais e mais motivos para sentar-se nas praças e achar seu lugar ao sol. Por isso, quando soube que duas grandes empresas ( Gowex e Cablevisión) iriam transformar as principais praças da cidade em wi fi zones achei que isso merecia um post comemorando. A primeira praça será a Plaza Houssay, que fica em frente à faculdade de medicina, começando em meados de dezembro. Depois, os melhores espaços da cidade ganharão o serviço em uma adesão mês a mês até final de 2011. Pelo o que soube, minhas praças e parques preferidos estão na lista para tornar-se wi fi zone.

 
 

A praça da Faculdade de Medicina será a primeira a ganhar o serviço

 

Eu já me vejo brincando de skype, ligando e dizendo aos meus que estao longe dos dias que estão fazendo na cidade. Entre as Praças e espaços que serão wireless para o deleite dos internautas estão: Dorrego (Humberto 1° e Defensa); Plaza Serrano(Honduras e Serrano) Armenia; Angel Gris (Avellaneda eDonato Alvarez); plaza Arenales (Chivilcoy e Pareja); plaza Libertad (Paraguay y Libertad); parque Santojanni (Patrón eMartiniano Leguizamón); plaza Constitución; plaza Mariano Moreno (Rivadavia e Montevideo) ; plaza Rodríguez Peña (Callao e Paraguay; De la Democracia (De la Torre e Berón de Astrada); parque Avellaneda (Directorio e Lacarra); parque Chacabuco (Eva Perón e Curapaligüe); parque Lezama (Paseo Colón e Martín García); parque Lavalle (Libertad e Lavalle); plaza Belgrano (Juramento e Cuba); parque Saavedra (García del Río eMelián); Paseo de la Infanta (Libertador e Freyre); el Rosedal (Iraola e Infanta Isabel); parque Rivadavia (Rivadavia e Doblas); parque Centenario (Díaz Vélez e Marechal); plaza Martín Fierro (Urquiza e Barcala); Jardín Botánico (Santa Fe e República Arabe Siria); la Plaza de la República (9 de Julio e Corrientes); la Plaza de Mayo (Balcarce e Rivadavia) e parque Las Heras (Las Heras e Coronel Díaz). Muitos desses lugares são super turísticos (como a Plaza de Mayo, por exemplo) e os que não são deveriam entrar na lista pois são um must see! Agora, é rezar para que o wi fi venha com aumento de policiamento. Não está fácil andar com um lap top pelas ruas da cidade. Há momentos em que Buenos Aires parece Gotham city, sem o Batman…

Buenos Verdes

20 nov

O Jardim Botanico, tarde de ontem

Não sou exatamente um ser da selva de pedra. Em retrospectiva, sou mais um bicho do mato que uma cria da cidade. Quando cheguei a Buenos Aires, para começar a armar minha nova vida aqui, sofri um mínimo ataque de pânico quando vi a Plaza Itália. Nervosa como uma aranha viária, a praça, centro de Palermo, era para mim a representação visual mais palpável do que é uma cidade de 15 milhões de habitantes. Ônibus, hordas de pessoas , escapamentos, ruídos diversos, pistas difíceis de cruzar, mendigos, fizeram com que eu visse ai um lugar meio assombroso, mundo cão, dog eat dog. É engraçado como ao largo do tempo podemos adquirir visões completamente distintas das mesmas coisas. As cidades, conforme as vamos penetrando, vão se transformando com transcorrer do tempo; a Buenos Aires que via quando vim pela primeira no fim dos noventas me parece uma lembrança sonolenta de outra era, como um poema de Borges. A metrópole que encontrei quando cheguei com minha malinha de sonhos no começo do ano também já é distinta da cidade que hoje  chamo de casa com tanta propriedade. E assim vou trocando a roupa de Buenos Aires até o fim de minha estadia. Idolatrando o que me parece mágico, deixando cair na rotina o que já conheço.

Um dos exemplos mais dramáticos disso para mim virou a Plaza Itália.

O Jardim tem 31 obras de arte

 Como hoje moro a apenas três quadras dela, ela deixou o ar sinistro e ameaçador que tinha para mim tornando-se a porta de entrada para minha Buenos Aires verde. Ironias a parte, mostrando que a vida é mesmo uma questão de ponto de vista e ângulo, é por ela que passo quando preciso de ar. O lugar que antes para mim era o arquétipo da metrópole hoje é meu pulmão Cosmopolita. O tédio que é estudar todos os dias por largos períodos de tempo venho superando com a mudança de cenários. Assim, vou constantemente buscando novos lugares para levar para tomar sol meus enormes e enfadonhos textos.  Quando não agüento ver os dias lindos de primavera das janelas dos Cafés, arrasto minha mochilinha e minha resma de textos a basicamente dois Lugares: o Jardim Botânico e os Bosques de Palermo.

Acessivel a todos

Meu roteiro verde começa no Jardim Botânico, entrando pela Avenida Santa Fé.  Com uma sede principal, um herbário, uma biblioteca, 5 invernáculos e 31 obras de arte, o Jardim Botânico de Buenos Aires é uma viagem no tempo. Não fosse o barulho dos ônibus que circulam pelas ocupadas vias ao redor do lugar, seria possível sentir-se em uma dessas novelas de época da Jane Austen. A Argentina tem, sejamos sinceros, certa vocação aristocrática. Fosse por decisão daqueles que possuem as rédeas do país, a Argentina se mudaria para a vizinhança da França. Diferente do Brasil, ainda que conservemos cidades históricas, este país ainda cultiva em sua vida cotidiana certo desejo europeu. Está na arquitetura, na literatura nos esportes e até em certos hábitos argentinos. Embora isso se reverta às vezes em certa arrogância, mesmo que eu ache que argentinos são muito menos soberbos do que me pintaram, o melhor da Europa aqui é aproveitar as estruturas que esta onda européia deixou. O Jardim Botânico é um desses casos. É algo sublime aproveitar uma tarde durante a semana para ler aí acompanhada apenas de alguns das centenas de gatos que habitam o local.

O Jardim e seus habitantes

Reza a lenda que os gatos são deixados em memórias dos mortos, mas sinceramente são sei se isso é mito urbano ou não. Não gosto muito de pensar nisso quando estou sozinha ai. A controvérsia dos gatos não acaba por ai: blogs acusam o governo de haver exterminado 1.500 gatos a pauladas, o jornal La Nación chega a pedir uma solução para o problema e lançam-se campanhas na internet para a adoção dos bichanos. Enquanto o dilema dos gatos sinistrinhos do Jardín Botánico de Buenos Aires não se resolve eu continuo freqüentando o lugar desacompanhada de comida, pois outra lenda do lugar é que os gatos atacam frente à presença de comida. Verdades e mitos a parte, o lugar é um pequeno Oasis urbano.

Bosques de Palermo, meu segundo lar

 Seguindo a Av. Sarmiento, onde mais de 45 mil pessoas, cantaram “Força Estranha” junto a Caetano Veloso por ocasião da Feira do Livro, em um dos momentos mais arrepiantes que já vi por aqui, passando pela cerca viva do zoológico onde com sorte é possível ver flamingos banhando-se ao sol se chega aos Bosques de Palermo, um retalho verde na enorme colcha de concreto que se entende a beira do Rio Prata. Isso é Buenos Aires, com suas rua fechando-se sobre a pista e dando as costas á água. Embora, às vezes fique tão cansada da caminhada até os Bosques que o único que faça é me jogar como um saco de batatas sobre a grama na beira do lago, há muito para ver. Estive nos últimos dias no Rosedal, um frondoso jardim de rosas multicoloridas, e estão todas abertas dando ares vitorianos a

Fim de tarde nos Bosques, meu jardim secreto...

 Palermo. Por cerca de R$ 8 reais é possível alugar uma bicicleta ou patins e percorrer boa parte do parque e da Avenida Libertador. Se seu negócio é sombra e água fresca aqui também é seu lugar. Nos fins de semana fica cheio de famílias que terminam o passeio em choripan (literalmene pao com linguiça) , ainda sim é possível achar um cantinho de paz entre os patos ou ir andando até o planetário que nas noites de lua dispõe de lunetas para a observação da lua. Bienvenidos a mi Buenos Aires verde.

Viva Zapata –  Meus amigos da embaixada mexicana me alertaram e eu prometi deixar aqui o convite. Amanha é dia de Bosque. De meio dia até as oito da noite a Embaixada do México e governo argentino promovem um festival mexicano comemorando o Bicentenário da Independência e cem anos da revolução mexicana com direito a música ( meus queridinhos Los Paquitos tocam!) , comidinhas e arte. Com as altas temperaturas que já chegaram é a minha dica cultural para o sábado de fim de semana largo na capital. Deixo o convite aqui, as atividades comecam as 12h no Rosedal.

Todos por Néstor

28 out

A cidade amanheceu com ares de normalidade. Um dia comum de trabalho apesar do luto nacional. O sol, vejam só, brilhando normalmente. Os comércios funcionando, as veias da metrópole, apesar de abertas, pulsantes. No meio da manhã as catracas do metrô já estavam abertas e concediam passagem gratuita a enorme multidão que se juntaria na Plaza de Mayo para o funeral. Nos vagões uma cena me lembrava uma velha fotografia da morte do presidente norte-americano, J.F Kennedy:  todos os passageiros sentados com os jornais abertos com a manchete catastrófica.  Pela primeira vez o senhor da banca não me olhou com curiosidade quando pedi uma edição de cada um dos principais diários, como faço habitualmente.

Pelo primeira vez, na banca de jornal, nao recibi olhadas curiosas do vendedor por comprar todos os jornais

Talvez, nas últimas décadas, não há episódio em que a Argentina se assemelhe tanto aos seus tangos.Talvez poucas vezes estivesse tão perto do ritmo musical trágico que hoje em dia não é nada mais do que o recordo nostálgico dos velhinhos e atração de turistas. Este país tão marcado por mães sem filhos, avós sem netos, desempregados sem teto, viúvas e desaparecidos volta adentrar sua melancolia histórica tão intimamente ligada a sua vida política. Durante todo o dia milhares de pessoas enfrentaram horas de fila ao sol para dar o ultimo adeus a Néstor Kirchner que era velado por sua mulher, filhos e amigos dentro de um salão da Casa Rosada. Cristina permaneceu todo tempo lá, alisando o caixão com suas mãos bem feitas recebendo Mujica, Rafael Correa, Evo Morales, Piñera, entre outros mandatários sul-americanos. Agradeceu ao público que entrava em ondas com a mão no coração e agüentou com dignidade a longa jornada.

As 19h45, um cantor de ópera, vindo da fila aberta ao público, entrou cantando “Ave Maria” agravando o cenário lúgubre.  No público há de tudo, veteranos das Malvinas, loucos, histéricos e até o grupo de deficientes Mundo Alas, que ganharam fama aqui graças a um documentário feito sobre eles. Artistas, apresentadores e celebridades locais também vieram prestar homenagens a Néstor e sua família.  Cristina, quando não agüentava passar incólume a comoção do povo, se levantava ia até a fila que circundava o caixão e cumprimentada um a um os mais emocionados,  tornando a cena ainda mais onírica. O silencio era quebrado por gritos de “fuerza Cristina” enquanto ela acenava em agradecimento.De uma estranha maneira, ao morrer, Néstor Kirchner realizou  seu último grande ato político em favor de sua viúva.

A cidade amanheceu cheia de cartazes de apoio

Seja  qual for sua opinião sobre a presidenta da Argentina, não há opção senão compadecer-se do sofrimento de uma mulher que perdeu seu companheiro de 35 anos e mentor político. É, neste momento, a viúva mais respaldada do sul deste continente, ganhando força política minuto a minuto. Enquanto na Plaza de Mayo milhares de pessoas choram juntas sua orfandade, uma volta por Palermo, onde vivo, revelou nada mais do que cenas cotidianas. No colégio do bairro as crianças saiam fantasiadas graças ao Halloween, velhinhos passeavam a lentos passos pelas ruas, casais tomavam sorvete nas esquinas. Não fossem os pequenos outdoors colocados a cada 50 metros com as fotos de Néstor e Cristina na cidade com os dizeres mais ouvidos nas últimas 48 horas – Fuerza Cristina – , era possível dizer que, pelo menos em Palermo, não morreu ninguém.

No Pg 12, Nestor deseja fuerza

Todos os canais locais e a CNN seguem com a cobertura non stop. Na C5N, uma das principais emissoras locais, as cenas do funeral são acompanhadas de uma música igualmente fúnebre dando ares cinematográficos ä viúva que sustenta olhos escuros e taller, impecável recebeu a Maradona. Chavéz fazia discurso no Aeroparque ( Aeroporto mais próximo da cidade), colunistas políticos já discutiam o destino da nação e os editoriais de La Nación e El Clarín lembravam que os Kirchners são melhores em manter o poder do que governar. Opiniões corajosas que desafiam uma nação profundamente consternada.  No Clarín, as matérias, no entanto, simpatizavam com o falecido, uma ultima ironia já que o ex-presidente  e o jornal o Clarín travaram batalhas históricas. No jornal de esquerda Página 12, um simpático cartoon de Néstor ocupava a toda a capa do diário com os dizeres ‘Fuerza todos”.

Dizem que Néstor morreu na exata hora em que nasceu sessenta anos antes. Que jantou com amigos e que a última imagem dele vivo foi tirada na sexta-feira por um simpático casal em um bar em Calafate, esta minúscula cidade na Província de Santa Cruz onde os Kirchners iam buscar paz nos fins de semana. Era diabético, cardíaco, não agüentava maiores caminhadas, nem uma pelada e que morreu em um segundo. Amanhã Néstor empreende sua última viagem rumo ao sul, onde será enterrado junto ao seu pai. Eu me abstenho de opiniões políticas, mas pelo o que está o centro de Buenos Aires nesse instante, para que Néstor se una ao pai todo uma nação deve aprender a se despedir do seu.  Fuerza Argentina!

Para acessar as notícias em tempo real:

http://www.infobae.com/adjunto/nestorkirchner/C5N_NK.html

Na praça, por Cristina

28 out

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Com temperaturas amenas os fins de tarde de primavera em Buenos Aires se fazem cada dia mais agradáveis.

As pessoas enchem as praças com saudade do sol. Seria assim que a cidade despertaria da reclusão imposta pelo Censo Argentino não fosse a morte súbita de Néstor Kirchner que mudou o roteiro dos portenhos para uma só praça. Quando cheguei a Plaza de Mayo por volta do meio da tarde havia uma pequena multidão que se formava e um silencio esporadicamente interrompido por palmas e choros baixos. O pipoqueiro aproveitava para fazer uns trocados e uma grande fila já se formava para ascender à fachada da Casa Rosada. Ali começavam acumular-se flores e cartas. Uns cem metros antes a polícia já havia instalado um alambrado onde faixas e mensagens de despedida se aglomeravam.Quando o silencio se tornou demasiadamente incomodo as aglomerações de partidários peronistas e kirchneristas começaram a cantar a marcha peronista, um cântico que ia irradiando-se pela praça e que terminava em palmas.

Jornalistas afobados corriam seguidos dos passos confusos de seus câmeras , microfone em punho, abordando os transeuntes mais chorosos. Muita gente trazia os olhos mareados que quando encontravam um abraço deixavam-se molhar por completo. Algumas pessoas tapavam as bocas de incredulidade.  A grande maioria era de gente jovem, seguindo assim até a noite, claro testemunho da força da “juventud kirchnerista”. Como torcidas organizadas os grêmios sindicais indo ingressando á praça um a um sob aplausos dos presentes e cantos  próprios. Por volta das seis da tarde a praça deixava de ser uma alameda salpicada de gente para dar espaço a uma massa homogenia de gente e faixas que se voltava para o palácio presidencial. Muitas das faixas solidarizavam-se com a viúva e outras lembravam um dos maiores ícones da nação: o general Perón.

Evita ganhou um enorme boneco inflável e a pirâmide no centro da praça um enorme cartaz de Kirchner como o personagem de história em quadrinhos, o Eternauta, dando ao espetáculos ares pop arte.

No começo da noite, em uma das cenas mais comoventes da noite, chegaram as vans com as madres de mayo, já velhinhas, com os tradicionais lenços brancos na cabeça, acompanhadas de enorme comoção e da dignidade que lhes é solene. Elas prestavam homenagem ao homem que em um ato de repúdio a ditadura, que por muitos anos assolou o país, retirou os quadros de ditadores da Escuela de Mecánica de la Armada, coisa que não haviam feito seus antecessores democráticos. Muito antes da sapatada que recebeu o presidente norte americano George W. Bush, no Iraque, Kirchner já havia desbancado o mandatário durante a Cumbre de las Américas que se realizou em Mar del Plata, frustando o plano de Bush de implantar a ALCA na região, humilhando Bush que deixou o encontro irritado e brigado com Néstor.

Elegeu democraticamente sua mulher ( embora a Argentina sustente certas tendências nepotistas vide Isabelita Perón e Evita). O corpo de Néstor Kirchner será velado amanhã na sede do governo e   enterrado posteriormente em Calafate, junto aos restos mortais de seu pai. A demonstração que segue neste momento com milhares na Praça de Maio além de homenagem ao ex-presidente falecido na manhã de hoje é testemunho também de apoio popular a sua viúva, atual presidente da Argentina, um apoio que ela precisará nos duros tempos que a esperam. Deixo aqui imagens de uma nação chocada e comovida, impossível ficar imune a consternação coletiva.