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Buenos Verdes

20 nov

O Jardim Botanico, tarde de ontem

Não sou exatamente um ser da selva de pedra. Em retrospectiva, sou mais um bicho do mato que uma cria da cidade. Quando cheguei a Buenos Aires, para começar a armar minha nova vida aqui, sofri um mínimo ataque de pânico quando vi a Plaza Itália. Nervosa como uma aranha viária, a praça, centro de Palermo, era para mim a representação visual mais palpável do que é uma cidade de 15 milhões de habitantes. Ônibus, hordas de pessoas , escapamentos, ruídos diversos, pistas difíceis de cruzar, mendigos, fizeram com que eu visse ai um lugar meio assombroso, mundo cão, dog eat dog. É engraçado como ao largo do tempo podemos adquirir visões completamente distintas das mesmas coisas. As cidades, conforme as vamos penetrando, vão se transformando com transcorrer do tempo; a Buenos Aires que via quando vim pela primeira no fim dos noventas me parece uma lembrança sonolenta de outra era, como um poema de Borges. A metrópole que encontrei quando cheguei com minha malinha de sonhos no começo do ano também já é distinta da cidade que hoje  chamo de casa com tanta propriedade. E assim vou trocando a roupa de Buenos Aires até o fim de minha estadia. Idolatrando o que me parece mágico, deixando cair na rotina o que já conheço.

Um dos exemplos mais dramáticos disso para mim virou a Plaza Itália.

O Jardim tem 31 obras de arte

 Como hoje moro a apenas três quadras dela, ela deixou o ar sinistro e ameaçador que tinha para mim tornando-se a porta de entrada para minha Buenos Aires verde. Ironias a parte, mostrando que a vida é mesmo uma questão de ponto de vista e ângulo, é por ela que passo quando preciso de ar. O lugar que antes para mim era o arquétipo da metrópole hoje é meu pulmão Cosmopolita. O tédio que é estudar todos os dias por largos períodos de tempo venho superando com a mudança de cenários. Assim, vou constantemente buscando novos lugares para levar para tomar sol meus enormes e enfadonhos textos.  Quando não agüento ver os dias lindos de primavera das janelas dos Cafés, arrasto minha mochilinha e minha resma de textos a basicamente dois Lugares: o Jardim Botânico e os Bosques de Palermo.

Acessivel a todos

Meu roteiro verde começa no Jardim Botânico, entrando pela Avenida Santa Fé.  Com uma sede principal, um herbário, uma biblioteca, 5 invernáculos e 31 obras de arte, o Jardim Botânico de Buenos Aires é uma viagem no tempo. Não fosse o barulho dos ônibus que circulam pelas ocupadas vias ao redor do lugar, seria possível sentir-se em uma dessas novelas de época da Jane Austen. A Argentina tem, sejamos sinceros, certa vocação aristocrática. Fosse por decisão daqueles que possuem as rédeas do país, a Argentina se mudaria para a vizinhança da França. Diferente do Brasil, ainda que conservemos cidades históricas, este país ainda cultiva em sua vida cotidiana certo desejo europeu. Está na arquitetura, na literatura nos esportes e até em certos hábitos argentinos. Embora isso se reverta às vezes em certa arrogância, mesmo que eu ache que argentinos são muito menos soberbos do que me pintaram, o melhor da Europa aqui é aproveitar as estruturas que esta onda européia deixou. O Jardim Botânico é um desses casos. É algo sublime aproveitar uma tarde durante a semana para ler aí acompanhada apenas de alguns das centenas de gatos que habitam o local.

O Jardim e seus habitantes

Reza a lenda que os gatos são deixados em memórias dos mortos, mas sinceramente são sei se isso é mito urbano ou não. Não gosto muito de pensar nisso quando estou sozinha ai. A controvérsia dos gatos não acaba por ai: blogs acusam o governo de haver exterminado 1.500 gatos a pauladas, o jornal La Nación chega a pedir uma solução para o problema e lançam-se campanhas na internet para a adoção dos bichanos. Enquanto o dilema dos gatos sinistrinhos do Jardín Botánico de Buenos Aires não se resolve eu continuo freqüentando o lugar desacompanhada de comida, pois outra lenda do lugar é que os gatos atacam frente à presença de comida. Verdades e mitos a parte, o lugar é um pequeno Oasis urbano.

Bosques de Palermo, meu segundo lar

 Seguindo a Av. Sarmiento, onde mais de 45 mil pessoas, cantaram “Força Estranha” junto a Caetano Veloso por ocasião da Feira do Livro, em um dos momentos mais arrepiantes que já vi por aqui, passando pela cerca viva do zoológico onde com sorte é possível ver flamingos banhando-se ao sol se chega aos Bosques de Palermo, um retalho verde na enorme colcha de concreto que se entende a beira do Rio Prata. Isso é Buenos Aires, com suas rua fechando-se sobre a pista e dando as costas á água. Embora, às vezes fique tão cansada da caminhada até os Bosques que o único que faça é me jogar como um saco de batatas sobre a grama na beira do lago, há muito para ver. Estive nos últimos dias no Rosedal, um frondoso jardim de rosas multicoloridas, e estão todas abertas dando ares vitorianos a

Fim de tarde nos Bosques, meu jardim secreto...

 Palermo. Por cerca de R$ 8 reais é possível alugar uma bicicleta ou patins e percorrer boa parte do parque e da Avenida Libertador. Se seu negócio é sombra e água fresca aqui também é seu lugar. Nos fins de semana fica cheio de famílias que terminam o passeio em choripan (literalmene pao com linguiça) , ainda sim é possível achar um cantinho de paz entre os patos ou ir andando até o planetário que nas noites de lua dispõe de lunetas para a observação da lua. Bienvenidos a mi Buenos Aires verde.

Viva Zapata –  Meus amigos da embaixada mexicana me alertaram e eu prometi deixar aqui o convite. Amanha é dia de Bosque. De meio dia até as oito da noite a Embaixada do México e governo argentino promovem um festival mexicano comemorando o Bicentenário da Independência e cem anos da revolução mexicana com direito a música ( meus queridinhos Los Paquitos tocam!) , comidinhas e arte. Com as altas temperaturas que já chegaram é a minha dica cultural para o sábado de fim de semana largo na capital. Deixo o convite aqui, as atividades comecam as 12h no Rosedal.

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All that Jazz

18 nov

Começa no dia próximo dia 03 o Festival de Jazz de Buenos Aires e eu acho um gancho para falar de um dos (senão o mais) meus estilos musicais preferidos. Existem poucas coisas no mundo que fazem tão feliz quanto escutar um bom jazz. Sou daquelas que fecha os olhos, deixa pender a cabeça e balança os pés em um ritmo semi autista que me deixa anti social durante as Jam sessions. E a Capital está cheia deste som envolvente feita por músicos intrépidos que pelas noites enchem a cidade desse zumzumzum macio. Eu sei que existem centenas de boas casas de jazz na cidade, mas eu mesma só conheço e freqüento algumas. Gosto muito das que são feitas por músicos que se somam depois do trabalho, depois de suas jornadas diárias, como Clark Kents musicais, mudando de identidade para abraçar o jazz como é o caso do Ladran Sancho  (Guardia Vieja 3811) .

Nas Jams, que acontecem as terças feiras, os músicos vão somando-se aos poucos e com uma espontaneidade raramente vista em outros lugares. O resultado é quase sempre espetacular. Eu acho que já falei disso aqui, mas não me esqueço nunca do baterista cotó que fazia com meio braço o que bons bateristas não fazem com dois. Outro lugar muito tradicional na cidade é o Thelonious ( Salguero 1884, piso 1). Um lugar extremamente digno e descolado recebe quase que diariamente jazzeros dos quatro cantos do mundo. Um bom bar para ir de casal, curti um drink, uma aura blasé e escutar um jazz educado. Outra referencia é o espaço Notorious  (Callao 966) que tem uma programação consistente de Jazz e graças à iniciativa Club Brasil, de Bossa Nova também.  Deixo aqui também o jazz que escuto em casa, o canal Accujazz de rádio online com dezenas de variações de jazz para todos os gostos, de todas as vertentes, eras e instrumentos. O menu é de dar água na boca para os fanáticos pelo ritmo. Só saxofone? Tem. Piano? Vamos! Old School? That could be arranged!É uma brincadeira e tanto passar o dia descobrindo os canais do Accujazz. Um must!

As entradas para o Festival de Jazz de Buenos Aires já estão sendo distribuídas/vendidas  no site www.festivales.gob.ar  ou  pessolmente na Casa de la Cultura (Av. de Mayo 575) e no Teatro 25 de Mayo (Av. Triunvirato 4444), de segunda a sexta-feira  de 11 a 19 hs. Além dos recitais, a programação inclui ainda workshops e sessões de cinema. “Personalmente” eu vou atrás das entradas para a abertura no dia 03 de dezembro quando tocam Mingus Dynasty, Frank Carlberg & Christine Correa no Teatro Coliseo.  Acho a voz da indiana naturalizada norte-americana um dos highlights do festival.

Christine Correa: voz sublime, um dos highlights do festival

Deixo aqui um videozinho de Cortázar falando do Jazz. Estou com ele que diz que o “jazz é uma espécie de presença continua”.  Jazz me up Buenos Aires!

Argentina quer se conhecer melhor

26 out

Atenção turistas!Amanhã , quarta-feira, é um dia meio morto no país.O feriado diferente é o censo argentino que restringirá as atividades comerciais do país, fechará todos os restaurantes, ficando proibidos também espetáculos, cinemas, atividades esportivas e tudo mais que é divertido por aqui. Façam sua matulinha de comida e aproveitem para ver a cidade em um ritmo diferente se você não é argentino, como eu. De repente, vale aproveitar os dias lindos de primavera para um “asado”, ou churrasquinho, como dizemos em terras brasilis. Vai ficar tudo fechado até as 20hrs. A idéia é manter a população em casa para que um dos 650 mil “censistas” possam encontrá-los. O censo é realizado pelo polemico INDEC (Instituto Nacional de Estatísticas e Censos) que vive sob fogo, sendo questionado permanentemente por suas números e índices, principalmente aqueles que medem a inflação no país. O governo que conhecer melhor os dados demográficos e econômicos do país.

E, pela primeira vez, incluirá perguntas sobre a população afro descendente do país. Espero ansiosamente estes dados porque sempre nos perguntamos o que aconteceu aos negros argentinos.  Também querem saber mais sobre os “pueblos originários”, os indígenas daqui tão negligenciados quanto o resto da América latina. O censo acontece simultaneamente em 70 países,uma vez a cada dez anos e  também incluirá perguntas sobre a população “descapacitada” do país. Os primeiros resultados se conhecerão em dezembro, mas os dados consolidados não estarão disponíveis em completo até dezembro de 2011. O governo pede que todo mundo fique em casa ou garanta pelo menos uma pessoa por lar presente entre as 8h da manha e 20hrs.

O governo diz ainda que os turistas também participarão do censo, mas vamos combinar né? Ainda não consegui descobrir se os parques estarão abertos, mas se a resposta for positiva, minha dica é fazer hoje a cesta de picnic de amanha e aproveitar a cidade florescendo na estação que antecede o verão nos Bosques de Palermo, onde sempre estou nos finzinhos de tarde caminhando.

PARA SABER MAIS SOBRE O CENSO ARGENTINO ACESSE:

http://www.censo2010.indec.gov.ar/index.asp

Luxo nem Lixo

20 out

Vi ontem um bicho/Na imundície do pátio/Catando comida entre os detritos.Quando achava alguma coisa,Não examinava nem cheirava: Engolia com voracidade.O bicho não era um cão,Não era um gato, Não era um rato.O bicho, meu Deus, era um homem. ( Manuel Bandeira)

O lixo se acumulava, o cheiro era insuportavel, na calle 25 de mayo, esta manha, a passos da Casa Rosada, sede do governo

Em uma cidade de 15 milhões de habitantes, além da temida greve dos transportes públicos, que acontece apocalipticamente de quando em quando, duas paralisações levam ao caos uma metrópole: uma greve de coveiros ou de lixeiros.Enquanto os mortos continuam sendo enterrados nos Cemitérios de Chacarita, Recoleta, Avellaneda e tantos outros na província de Buenos Aires, o lixo, no entanto, segue sendo velado em plena rua. A cúpula da Coordinación Ecológica Area Metropolitana Sociedad del Estado (Ceamse) promete que restabelecerá com normalidade o serviço amanhã. Hoje, o cheiro nas ruas era moribundo, o governo estudava decretar emergência sanitária, e nos lembrava o tênue equilíbrio de funcionamento e convivência que supõe uma capital tão abarrotada de gente e, por conseqüência, de detritos. Há meses venho defendendo a cidade de minhas visitas que acusam a capital de suja enquanto pelas madrugadas via gente bem vestida disfarçadamente mexendo no lixo em busca sabe-se lá do que. É uma cena triste e soturna que já vi se repetir diversas vezes. O lixo deixado nas ruas, à espera de coleta, é vitima de saques dos cartoneiros, gente que vive do que outra gente joga fora, como num poema do Manuel Bandeira, o que faz com que pelas manhãs a cidade se pareça a um cenário de um filme de guerra. Enquanto isso, meu site argentino preferido, o Planeta Joy, anunciava uma feira de espumantes e champagnes para o dia 11 de novembro, no hotel Panamericano, com a participação de mais de trinta bodegas. São cenas de uma cidade que vive de luxo e lixo, convivendo lado a lado, como muitas metrópoles sul-americanas.

 

 

A Festa de Babette

19 out

 

Perdoem-me leitores se os últimos e próximos posts remetam a um pouco de nostalgia e banzo. Mas, eu cometi um erro. Amargo já sete meses sem pisar no Brasil, deveria ter ido diversas vezes, mas por paixão a Buenos Aires não consegui deixar esta Isla Bonita senão para voltinhas mais ao sul. Por isso, confesso que entrei numa fase complicada que culminará em dezembro quando volto à saudosa maloca para longas férias. Deveria ter empreendido visitas homeopáticas, eu sei. O que me resta é matar saudade do pouco do que é muito brasileiro em Buenos Aires. E eu não estou me referindo a comer feijoada no restaurante Me leva Brasil na Plaza Armenia. A saudade já virou saudade de algo mais mundano. Saudade da  pizza brasileira, do arroz como é feito no Brasil, do jeito que comemos sushi. Saudade da temakeria.Eu costumava sair da Yoga nas segundas e quartas direto para temakeria. Era, para mim, o momento certo para cair de boca num salmão. Feito o exercício, a limpeza espiritual, queria mesmo era uma garrafinha de cerveja, depois do dia duro de trabalho, e um kone para voltar assobiando para casa.

Sabe-se lá porque cargas d’água parece não haver pesca significativa nesta orelha do Rio Prata. Não há a menor cultura de peixe em Buenos Aires. Já comi bons frutos do mar em restaurantes espanhóis e vejo um certo protagonismo marítimo nos mercados no Barrio Chino, mas peixe não é nem personagem coadjuvante nos cardápios da capital.  O negócio é carne, alta, gordurosa, em grandes quantidades. Tenho a impressão, às vezes, que os acompanhamentos são dispensáveis para os portenhos. Por eles, tiravam o boi do pasto, cavavam um buraco, assavam e enfiavam o garfo ali mesmo no bicho.

Eu não. Sinto falta de variedade e te tanto ver carne estou cada vez mais adepta dos vegetarianos. Por isso, entrei no processo “sabores da terra” onde procuro comidinhas com um je ne sais quoi de jeitinho Brasileiro. O primeiro que achei nessa jornada ao coração da gastronomia nostálgica foi uma boa pizza. Se, no começo, em missão kamikaze calórica, eu gostava das enormes e fundas pizzas portenhas, hoje sinto falta mesmo é de algo leve.  Não tenho nada contra me acabar na Guerrín, no El Cuartito, sair da Boate as cinco da manha e cair na Kentucky na Santa Fé ( aberta 24 horas). Mas, com a proximidade do verão, prefiro andar no lado branco da força. Descobri essa cadeia de pizzerias: Armacen de Pizzas. Não é uma pizza em Napoli, mas é mais fina e leve, e tem variações mais complexas do que as tradicionais Fugazzas e Fugazzetas ( pizzas de cebola) e nem tudo leva morrón. Morrón, nossos pimentões, são aparentemente obrigatórios por lei em todos os ingredientes de qualquer prato bonairense. A essa altura preferia que fosse até jiló, porque já sofri pelo menos três overdoses da leguminosa. O mesmo acontece com o purê de abobora. Eu continuo comendo porque costuma ser a opção mais saudável do cardápio. Mas, na verdade, preferia fazer campanha para o Maluf a continuar comendo “purê de calabaza”. Por isso, ando atrás de comidinhas tudo a ver com o modo brazuca. O Armacen da Pizza é uma excelente pedida e com delivery para aqueles dias em que tudo que se quer e ver os mineiros serem retirados da mina um a um com a companhia luxuosa de uma pizzazinha. Essa é a dica número 1. A gigante pizza da casa é tudo que faltava no seu programa filme e amigos. Na ausência de um boteco com frango a passarinho e pescoço de peru, ás vezes caio de boca num peruano.

A comida peruana está “de moda”na capital. Acho que deve ter começado com a tradicional aglomeração de estabelecimentos  na região de Abasto. Onde vendem frango a assado a quilos e transcendeu as barreiras do “bar sujinho” ganhando ares aristocráticos nos restaurantes nipo-metidos a besta em Palermo. Hoje, tem de tudo, das cozinhas onde se reúnem expatriados peruanos para matar saudades limeñas a chiquérrimos nipo-peruanos com seus sushi s recheados de abacate e ova de qualquer coisa de mares distantes. Por motivos estritamente financeiros eu prefiro comer com os exilados em cantinas menos high end. Conheço algumas as quais me fiz adepta como o Tataki  e o Chan Chan, cuja decoração kitsh com rosas de plástico pregadas com durex na parede eu adoro. Ultimamente parei de explorar ceviches, causas e papas hucainas para encontrar semelhanças com nossos PFs de todos os dias. Você sabe o que é um arroz soltinho? Pois eu, até encontrar o Perú Deli, não me lembrava mais o que era. Como cozinhar arroz na capital já foi tópico de discussão acalorada, como argumentar política, em mesas brasileiras na capital. Não sei se é o nível de amido, o ponto de cocção, só sei que quando leio que “hay que colar” meu corpo inteiro reage ao fato de ter que escorrer o arroz como se fosse um macarrão. Eu me nego. Parece frívolo dedicar todo um parágrafo ao arroz argentino. Mas experimente ficar meses sem um arroz branquinho, soltinho.

 Por isso que, quando me apresentaram o Peru Deli, eu fui ao céu e voltei. A comida é ótima, mas tem dias que poderia pedir que me entregassem arroz, só arroz. De qualquer forma, o tempero peruano é parecido com o nosso e um simples frango acebolado pode ser a santa ceia para quem padece de banzo, como eu. O lugar oferece opções fúsion , até agora all quieto n the western front, comida excelente. Esta é a dica number 2! 

A ceia nipônica de Babette – Eu explicava aos meus amigos a estória do filme a Festa de Babette e porque me sentia no meu momentum cinematográfico enquanto colocava para dentro a largas mordidas um temaki de salmão e camarão na filial da cadeia brasileira Kono em Las Cañitas. Para eles, eu estraguei o final do filme que não haviam visto. Aqui, vou manter algo por ver. No filme, a francesa Babette chega a este povoado dinamarquês  no meio de uma noite de tempestade pedindo abrigo na casa de duas irmãs solteironas. Elas a abrigam e catorze anos depois ela recebe a notícia que ganhou uma fortuna na França. Resolveu então fazer um banquete suntuoso para as senhoras e amigos. Faz vir da França codornas, peixes, patos e todo tipo de iguaria e faz uma ceia faraônica. Há um twist a mais no filme que não me atrevo a contar, mas a metáfora vale para dizer que me senti assim há uns dias atrás, comendo o banquete nipônico de Babette e deixo a dica para quem não viveeee sem sushi como eu. Kono, Las Cañitas é a dica número 3. Continuo postando!

Serviço:

Clique no nome dos restaurante para horários, endereços e telefones.

Você já foi assaltado por um vietnamita?

22 set

Voce ja foi assaltado por um vietnamita?

Você já foi assaltado for um vietnamita? Eu já. Burguesia besta é assaltada em qualquer lugar, Buenos Aires não é exceção . Para provar que ressaca de Fernet, fome, desorientação e Palermo Hollywood não se misturam, meu cartão de crédito terá que amargar mês que vem três dígitos por uma comida que não enchia barriga nem de modelo anoréxica. Foi assim que eu e mais alguns amigos, dia seguinte a festinha de inauguração de minha nova casa em Palermo resolvemos, famintos, e com o cérebro seriamente afetado pelo álcool da noite anterior, comer algo diferente ao norte da Juan B. Justo no restaurante da moda Vietnamita: o Green Bamboo (Costa Rica, 5802). B-i-g-m-i-s-t-a-k-e! Mais de 150 pesos per capita por uma comidinha metida à besta, cinco pedaços (contados!) de peixe ao molho de três amendoins, literalmente e aquele ar inexplicável de “Como assim voce não acha normal pagar 80 pesos por um prato com três pedaços indecifráveis de qualquer coisa da gastronomia moderna?”.

 

Muro de Berlim, tipo a Johnny Be Good

Explico: a Avenida Juan B Justo, carinhosamente apelidada de Johnny Be Good Avenue, é uma espécie de Muro de Berlin em Buenos Aires, separa a classe média de Palermo da classe média alta  meio besta e com ares blasé de Palermo Hollywood.  É uma avenida com poucas passagens para pedestres, instransponível em vários pontos, com trilhos e trens inóspitos, muros pixados e warehouses aparentemente abandonadas. Tudo nela parece dizer não ultrapasse. Para mim ela só serve para que taxistas lhes dêem enormes explicações sobre as voltas que tem que dar para atravessar a avenida e para manter gente desmotorizada fora do cool barrio Holiúdiano. É fácil ver se você terá ou não que cruzar a faixa de Gaza. Se o endereço de onde você quer ir é numa rua de nome de país da América Central tipo Honduras, Guatemala, Costa Rica e está acima da altura de 5 mil mais ou menos você terá que cruzar a J. B Justo. A verdade é que eu vivo por aí. Gosto dos restaurantes, das enormes árvores que abraçam ruas cheias de belíssimos prédios e casarões. E adoro sua crowd descolada dos domingos. Mas é preciso fingir ser Imelda Marcos ou a mulher de um ditador africano para existir em Palermo Holiúde!

Green Bamboo: Bonitinho porém ordinário

E este mês eu andei me comportando como a rainha da Jordânia, gastando como se tivesse um marido magnata do petróleo.

Como eu gosto de comer e beber com gente fina, elegante e sincera, mas meu orçamento não me permite muitos luxos entrei no mundo dos maravilhosos Menús do Meio dia. Portenhos curtem mesmo o jantar, sentam tarde, dez da noite e destroçam a dentadas filés de brontossauro, pedaços enormes de boi que parecem terem saído de um episódio dos Flintstones. Eu não sou evolutivamente equipada com o moedor de carne que argentinos já nasceram portando. Se janto como eles,  passo a noite sonhando com Zombies e monstros mitológicos. Meu negócio sempre foi sair com amigos e comer languidos almoços com direito a entrada, prato principal, sobremesa, cafezinho e livraria. E, para minha felicidade, muitos restaurantes da cidade estão querendo atrair pessoas como eu. São almocinhos agradáveis com bebida, entrada, prato principal e sobremesa inclusa pela baguatela de 20 e pouquisimos reais.

Até agora minha opção preferida é o Sudestada (Guatemala , 5602), que para comer bem pela noite com vinho você não desembolsará menos de 150 pesos, ou 75 reais. Mas com o Menú do meio dia, 20 reais te farão super feliz com entrada, vinho, prato caprichado, sobremesa e café. Fica a dica para dias sonolentos como hoje, quando o inverno ainda não descobriu que é primavera: ache um bom restaurante, uma boa barganha, uma boa janela e um bom menu. O Guia óleo tem uma boa lista de restaurantes que oferecem  “menus ejecutivos”. Vale a pena comprar o guia, é minha bíblia. O Meu eu comprei na Cualquer Verdura, esta loja incrível, que eu adoro levar os amigos, em San Telmo.

Belgrano é uma festa!

7 ago
 

Sweet Belgrano...

Buenos Aires é subaproveitada por turistas. Principalmente por turistas brasileiros. Estão comendo a casca e jogando a banana fora.  Para começar, parecem personagens em um desses programas de televisão onde dão dois minutos aos participantes para colocar no carrinho de supermercado tudo que puderem levar. Acho que no aeroporto já lhes dão um cronometro: “Vocês tem tantas horas, minutos e segundos para comprar tudo que encontrarem no caminho”. Eu sei que o cambio nos é favorável.  Não sou contra a passarem um dia inteiro nos Outlets da Avenida Córdoba satisfazendo os mais primitivos instintos consumistas. Não é minha praia. Mas, como dizem por aqui, “que sé yo”, eu sou apenas uma estudante dura de mestrado que ainda não superou os ideais hippies da década de setenta e prefere mil vezes gastar num bom vinho do que deixar minha pouca plata na loja da Adidas. Cada um com o seu cada um. O capitalismo é selvagem. A economia portenha agradece.

Belgrano e suas alamedas

Porém, não vou deixar de postar aqui minhas humildes sugestões para um turismo um poquito mais off Road, com menos português pelas ruas e mais contato com o dia a dia portenho que a bateçao de perna na Calle Florida que aliás, por mim, podia mudar-se para Miami. Eu tenho uma lista de cinco lugares que “você quer ir e eu não” em Buenos Aires. Coincidentemente, estão no top das listas dos turistas da capital. Acho que o turismo, na medida do possível, tem menos com o consumismo e mais com o experimentar de outras culturas. Na minha lista negra estão: Calle Florida ( para mim é o limbo de turistas que se crêem em Miami), Caminito (é uma cidade cenográfica), Plaza Francia ( é linda, mas eu enjoei) , Café Tortoni ( existem lugares muito mais charmosos onde não se cobra em euros na cidade) e Puerto Madero ( não vejo graça nenhuma em um lugar remodelado, a não ser se for para um belo por do sol).

O lado chines de Buenos Aires...

Por razoes de distancia, eu vinha ignorando o bairro de Belgrano. Não é tão longe assim. No entanto, em uma analogia chula, seria para mim a Barra da Tijuca da capital. Estou exagerando é claro, é a argentinizaçao. Aproveitava as tardes de sábado, no entanto, para comer no Bairro Chines. Como tenho aulas em Victoria, uns quarenta minutos de trem da capital, acabava por voltar pelo bairro Chino e aproveitar para variar um pouco com as comidinhas asiáticas. É um dos meus lugares preferidos na cidade. Na verdade, não passa de um par de ruas, começando no cruzamento das ruas Arribeños e Juramento. Mas, possui uma incrível aglomeração de restaurantes chineses, lugares que venho obstinadamente explorando nos últimos meses.

A Bloggeira, uma visitinha ilustre e o miojo gigante. Tem de tudo no Barrio Chino!

Cheio de lojinhas de penduricalhos, o bairro chinês é uma tchuchuca asiática que ganha vida durante os feriados e fins de semana.

O bairro Chines e suas criaturas. Nao me atrevo a dizer com que isso se parece!

Minha primeira parada sempre é a pequena lojinha de frituras do lado do supermercado Asia, na rua Mendoza. O negócio é comer sem preconceito os espetinhos pingando de gordura que você não sabe o que são e provavelmente não gostaria de saber o que são. Esqueça a alimentação saudável e coma esquisito e gordo. Deslembre sua noção de texturas e crave os dentes no gelatinoso tempura de merluza e depois reze para não ter uma infecção intestinal. Nunca me aconteceu, mas sempre me sinto vivendo perigosamente quando como esses troços deliciosamente estranhos.

 
 
 

Supermercado Asia: tem de tudo!

Justamente ao lado está o supermercado Asia, uma Meca de alimentos que você talvez jamais saberá do que se tratam.

Tantas variações de molho Soyo quanto há de vinhos, criaturas do mar que jamais deveriam chegar a superfície, doces chinês que desafiam a imaginação humana, uma variedade de miojos impressionante, lulas desidratadas, sopas de amendoim, woks e produtos do mundo inteiro que fazem deste mercado o lugar ideal em Buenos Aires para achar o azeite de dendê para aquele Bobó que você tanto sente saudade. Um templo gastronômico que infelizmente carece de tradução do Mandarin, mas enche os olhos de curiosidade e o estômago de apetite. Com o apetite aberto é hora de explorar os restaurantes. Já comi em quase todos. Entre os destaques estão o Palitos e Todos Contentos que, nos fins de semanas, tem largas filas na porta. Mas, ultimamente, venho me encontrando sempre de volta ao Lai Lai, uma portinha na rua Arribeños, sempre cheio, com apenas um garçom para dar conta de tudo e pratos incríveis como o Pescado con salsa Picante. Prepare-se para a pimenta. O negócio é comer suando e com coriza.

Um passeio a "La Redonda", depois de comer no bairro chines a redonda pode ser voce!

Depois, de pança cheia, minha sugestão é começar a subir coroados pelas alamedas de arvores secas durante o inverno, e dignamente verdes no verão, a rua Juramento em direção a Av. Cabildo, onde uma pequena grande jóia os espera.

Meu jardim secreto, Museo Enrique Larreta

Um dos meus espaços preferidos na cidade é o Museu de Arte Español Enrique Larreta, Avenida Juramento entre Vuelta de Obligado e Cuba. Um pequeno Oasis no centro de Belgrano, o museu, já foi uma “Quinta”, residência de verão, afastada da cidade de uma abastada família espanhola. Hoje, é um charmoso museu com um jardim simplesmente espetacular e um baobá gigante desses que dão vontade de abraçar ( vale a pena tentar)! Por apenas um mísero pesinho é possível visitar a casa, que é um pedacinho da Espanha colonial, ambientada com luxuosos moveis antigos, tapetes, armaduras e quadros flamencos, a exposição em cartaz ( atualmente a bela coleção de quadros do pintor espanhol Manolo Valdés)  e ahhhh, fingir que você é de outra época, de outro tempo, de outro momento no jardim.

Um museu que é uma tchuchuca!

 

Com sorte, você será o único nesse quintal do mundo. Depois, aos sábados, é possível curtir a ferinha na Plaza Manuel Belgrano, passar um fim de tarde aí tem algo de nobre e altivo, aproveite para um café e uma visita a Iglesia Redonda , a maravilhosa construção circular da Paróquia Inmaculada Concepción de Belgrano. Tudo cruzando a rua do museu. Depois está todo mundo liberado para comprar a vontade na Av. Cabildo, que tem muito mais opções que a Calle Florida e um terço do português.

 E para aqueles espíritos aventureiros, vale apenas descer até a  Glorieta de Belgrano, em frente a rua 11 de Septiembre, e curtir um Tango nesse coreto incrível com os ares tão típicos desse bairrio singular! Até onde eu sei o pessoal costuma se reunir para um 2×4 nas sextas, sábados e domingos a partir das seis da tarde. Gente de todas as idades, sob todos os pretextos, bailando com el alma,por aparentemente nada além pura paixão.  Sublime é a palavra. E isso é só a ponta do iceberg do que é Belgrano!