Tag Archives: Milonga

Cinema Paradiso, um tango

19 jul

Qualquer caso de amor tem seus altos e baixos, periodos de paixao, calmaria e ate de certo desdem. Minha relacao com Buenos Aires nao eh diferente. Ja nao somos a eletrizante paixao semi juvenil do ano passado, mas tambem ainda nao viramos um consolidado amor senil.

Cinema paradiso em ritmo de tango, eh muito para um coracao soh!

As vezes eh preciso um menage a trois para apimentar a relacao.

Eh assim que quando vem uma visita de fora – comecando a ver a cidade com os olhos de primeira vez – que eu vou, pouco a pouco, repensando minha cidade. Com o tango, por exemplo, acontece o mesmo. Se no comeco meu coracao parava com a primeira nota de um acordeon, hoje posso dizer que ja nao capto mais aquele violino melancolico lambendo as calcadas da Capital. Nao faco aulas, nao escuto Gardel e morro de preguica de ir a um tango. Continuo, no entando, moderadamente apaixonada pelo ritmo. Mas para sentir paixao mesmo eh preciso sair da rotina. Foi assim que escutei ontem, durante uma daquelas excursoes ao Youtube que requerem algumas tacas de vinho e horas insonia, algo que voltou a fazer latir meu coracao em ritmo de milonga. Talvez seja algo pessoal e intransferivel, mas um violino eh um violino. Eh uma das musicas da trilha sonora de um filme que marcou minha vida – tenho certeza de que nao fui a unica – Cinema Paradiso executada pelo quarteto Esteban Morgado.

Tanto o filme como a musica dispensam palavras. Basta dizer que existem coisas que sao lindas como sao. Lindas e, para mim, com som de infancia e aquela mordida nostalgica que o tango da na sua alma que eh tao dificil de explicar…

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Tango Off Road

9 jul

 

Tanguerias tradicionais, nada de jantar com tango!

O Jornal Argentino La Nación traz hoje uma matéria super útil sobre locais de tango fora do circuito mais batido. São milongas de “barrio” que não “se cotizam em dólares ou em euro”  e nem em reais. Para fugir da velha “cena com tango” pela qual me perguntam todos os brasileiros em visita á cidade.  Esqueça jantar com tango, meia arrastão e todo espetáculo teatral para turistas. Caia numa verdadeira milonga de bairro, onde os locais se deliciam com ritmos clássicos, mas sem o Mise-en-scène todo.

Não é o tango para exportação é a música que acontece apesar do turismo.  Nas tanguerías da matéria circulam locais, turistas mais aventureiros e tribos de rock n tango, num ambiente tipicamente porteño que evocam os ritmos clássicos que ganharam mundo.

 

La Garufa, a Naçoes Unidas do Tango

Em alguns lugares já sou habitué como a A Catedral do Tango ( veja meu post sobre este lugar incrível aqui! ) e o CAFF, onde a orquestra Típica Fernández Fierro deixa boquiabertos todos os sortudos expectadores que optam por ela nas quartas-feiras a noite. E também a noite La Garufa, no Centro Cultural Konex, a Nações Unidos do Tango, onde estrangeiros e porteños vão ensaiar seus passinhos.

Orquestra Fernández Fierro Arrasa!

Um detalhe: os preços também são tão locais quanto o tango. Nada para turistas. Vale à pena conferir. Leia a matéria na íntegra, com direito a mapinha do circuito e tudo. AQUIIII!!!!!

Três Tangos e um Funeral

24 jun

Uma casa para o espiríto

Nem me lembro exatamente em que contexto fomos parar lá. Meus amigos falavam deste lugar, eu queria mesmo é ter ficado no jazz do Ladran Sancho, onde um baterista cotó fazia com meio braço o que eu jamais seria capaz de fazer com meus dois membros inteiros. Saímos no auge da Jam session, fui de má vontade. Quando chegamos, olhei para a porta sem características marcantes de Sarmiento 4006 e continuei com má vontade. Subi a velha escada de ferro e amaldiçoei minha sorte. Nessa noite, não pagamos os dez pesos da entrada. Jorgelina , professora de tango da casa, e hoje minha amiga, veio nos liberar na porta. Fui devagarzinho pelo tapume e tive certeza de abrir uma cortina. Mas, essa cortina, conforme comprovei inúmeras vezes posteriores, nunca existiu.

 

Um lugarzinho como nenhum outro no mundo

A Catedral do Tango fica num velho galpão de construção original de 1880, no coração do bairro de Almagro. Já foi uma leiteria, silo de soja, açougue e finalmente o que é hoje: um dos melhores lugares de tango e chacarera da cidade, segredo bem guardado, mistura de underground com ponto turístico.

Com teto de 12 metros de altura, chão de madeira antiga, meia luz avermelhada, salão generoso,  decoração impressionante, a Catedral do Tango parece o filho hibrido de Almodóvar, Fellini e Kubrick. Contam que o enorme quadro de Gardel  (praticamente um outdoor) durante os tempos de gripe, ganhou uma enorme máscara também. Metáfora bem representativa do que é o lugar. Um templo que trata como religião o tango.

 

Quarta- feira passada na Catedral:Buenos Aires é uma cidade de músicos ( foto by Jacó)

Desde dezembro freqüento quando posso os tangos da terça-feira. Para mim, o melhor dia. Não há muito que falar senão que um item importantíssimo da decoração é um enorme coração humano, do tamanho de um carro popular, pendurado no teto. Sabe-se lá porque a cozinha é vegetariana e a carta de vinhos não é lá grandes coisas. Mas, a música e paixão são  de primeiríssima.  Tem noites que chego mais cedo e fico observando a aula de tango, noutras vou depois da meia noite, trato de me encher de fernet com coca e estar bem altinha quando chega a banda de sopros com os três tangos de Gardel.  Passo muito tempo também na área de fumantes, nas cocheiras do lugar, de olho na cozinha  e nos músicos que fazem rodinhas paralelas. Buenos Aires é, sobretudo, uma cidade de músicos

 

Uma casa para o espirito...

Eles estão por todas as partes com seus violões e acordeons, suas vozes tristes em semblantes jovens, seu tango de mochila, seu rock de Fito Paez. Impossível não escutar as vozes da cidade que, em noites de lua cheia, latem mais que os cachorros. No entanto, se não escrevi antes sobre a Catedral foi por ciúmes. Estou como Borges desenvolvendo um enorme sentimento de possessão por Buenos Aires. Ela é minha e eu sou dela e, como toda paixão escorpiana, não quero que seja de mais ninguém.

Fidelio!

Mas não é isso que vem acontecendo. Tenho sido impelida a compartir minha Buenos Aires com aqueles que vêm me ver, aqueles que querem vir me ver e aqueles que querem ver Buenos Aires como a vejo. Eu sou obrigada abrir mão do meu egoísmo e compartilhar sob pena de me tornar uma avarenta de alma, uma tacanha de espírito. Às vezes, estou na Catedral e me sinto numa festinha da família Adams, noutras numa cena de Amacord, um filme do Pasolini, num tango de Piazzola, perdida e subversiva como na obra de Bertolucci.

 Tem dias que, acompanhados por músicos insistentes e borrachos, ficamos até o sol varar as altíssimas janelas do salão e quando saímos para a rua descobrimos que realmente a Catedral reside numa galáxia paralela, três buracos negros distantes do resto do mundo. Noutros dias acho que vão me pedir uma senha para entrar, como no filme Olhos Bem fechados do Kubrick. Fidelio, fidelio, fidelio!!!!!!

 

 

Ah, e os três tangos são Volver, Por Una Cabeza e Cambalache. E o funeral é do meu fígado, com ritos fúnebres realizados esta manhã e que ontem a noite foi flambado em Fernet. E para saber mais sobre a Catedral do Tango clique aqui!!! A aula do século é de Jorgelina Contreras, entidade do tango, milonga e folclore encarnada. Confira a grade horários no site e use com parcimônia.