Archive | maio, 2010

Zen nos Aires

31 maio

Procura-se uma yoga deseperadamente...

Confesso que, embora não me falte vontade e saudade, não tenho posto muito empenho na busca pela Yoga perfeita em Buenos Aires. Fui seduzida pelo estilo de vida sedentário (ainda que a gente ande um montão nessa cidade), pelos prazeres da carne ( estou me referindo ao bife de chorizo mesmo), ao vinho, a Quilmes, as baladas, estilo de vida Rock and the City Buenos Aires. Enquanto que, no que depender de meu desenvolvimento espiritual, e a conta do karma, nascerei barata cascuda na próxima encarnação.  

Ponha um pouco de Bhagavad Gita em sua vida

Mas, ando com tanta saudade da prática de Yoga, que pareço uma louca incomodando clientes e proprietários em restaurantes vegetarianos em busca de sugestões de estúdio de Yoga e meditações transcendentais. Aparentemente, meu corpo já se esqueceu do exercício, meus ombros caíram, a postura encurvou e a pança só cresce.  Sem contar com a saudade que sinto daquele cheirinho de Nag Champa e patchuli que permeava minha vida de yoguin.

O problema é que Yoga é muito pessoal. Achar a prática ideal de yoga é como achar o psicanalista perfeito. Assim como na psicologia, que tem um montão de linhas; como Junguiano, Freudiano, Gestalt, a Yoga tem suas modalidades também. Tem Hatha Yoga, Swastia, Ashtanga, Kundalini, e uma infinidade de outras correntes que, para quem conhece fazem uma enorme diferença.

A modalidade ( se é que podemos chamar assim) que pratico há mais de três anos é a Hatha, o estilo mais tradicional. A Hatha se baseia na permanência nos “ásanas” ou posturas, com ênfase na respiração, durante certo período de tempo. Já a ashtanga, a titulo de ilustração, privilegia a repetição desses äsanas de maneira sincronizada e mais dinâmica que a Hatha, o que para mim, críticas a parte, parece ginástica. Mas, é tudo muito muito muito pessoal. Outro dia, para minha surpresa, vi  até um anuncio de “hidroyoga” que era, no mínimo, bem interessante.

 

Chamem-me de conservadora, mas meu negócio é incenso, mantra e ásana. Nada mais, nada menos. Por

Restaurante Krishna

 isso, quando por sugestão de amigos, coincidência, acaso, ou programação acabo, como hoje, em lugares como o restaurante Krishna na Plaza Armenia, algum fogo (sagrado) reacende em mim. Não se assuste com as cadeirinhas que parecem importadas da, casa dos sete anões, nem com a trilha sonora indiana com narrações do Baghavad Gita, muito menos quando te oferecerem fumaça de vela em oração nem mesmo quando um mocinho começar a entoar mantras ao seu lado com seu instrumento indiano, o Krishna é assim mesmo: boemia espiritual. Pessoalmente, me sinto em casa.

 

Mas, entendo quando comensais assustados se entreolham com preocupação. O negócio é relaxar, passar o chutney no chapati e aproveitar um dos melhores restaurantes vegetarianos da cidade. Está certo que, para morar em Buenos Aires, é preciso ser mais carnívoro do que um leão. Mas, nem só de choripan vive o homem e a cidade oferece excelentes opções para quem quer se abstiver de comer seus filés de brontossauro. O Krishna (Malabia 1833) é a experiência completa para um almoço ou jantar espiritual. A comida é de-li-ci-o-sa, leve e com precinhos transcendais também.

 
Tulasi, espiritualmente bom e barato

Outra grande opção, para um almoço rápido e justo, é o Tulasi (Marcelo T. de Alvear 628 ), a passos da Plaza San Martin. Esqueça as mesinhas baixas, almofadas, som de citra, o Tulasi é um austero botequinho dentro de uma galeria pra lá de comercial no meio do rebuliço que é o Retiro. Qualquer semelhança entre seu espaço físico, simples, mundano e sem grandes luxos, e sua saborosa comidinha é mera coincidência. O cardápio é incrivelmente barato, o atendimento uma gracinha ( aliás, vale um parêntesis aqui, atendimento amável em Buenos Aires faz de qualquer lugar um ponto turístico) e a comida incrível, dessas que fazem os olhinhos se revirarem um pouco com cada garfada.  Você já se imaginou salivando por um tofú? Prepare-se. As sobremesas, super diets e orgânicas, são surpreendentes também. Tem o diabo de um doce feito de gergelim que lembra chocolate conseguindo superá-lo que é dos deuses. Alias, seu dono, um argentino muito simpático, morou anos na Índia e agora diz que vai fechar as portas no fim do ano para ir no morar no interior de São Paulo. Uma pena! O restaurante oferece ainda cursos de cozinha vegetariana. Confira aqui!

 
Devas: consumismo Zen

Por fim, se seu negócio, como eu, Barbie Yoga, é uma bela lojinha, não abrindo mão de umas boas compras nem em nome de seu karma, pode refestelar-se na livraria e loja Devas que tem uma pá de filiais espalhadas pela cidade. A franquia é recheada de livros, tarots, mats de yoga e uma série de essenciais e supérfluos para quem quer se antenar com uma energia superior.  A missão da loja é pra lá de ambiciosa “ayudar a armonizar al ser humano con las energías que lo trajeron a la vida”, menos né! Mas, é mesmo uma excelente opção para aqueles que procuram boa literatura sobre Yoga e a parafernália necessária para começar a prática. Uma divertilandia yoguin. Veja AQUI!.

No mais, alguém tem uma Yoga bacana para me indicar? Estou seriamente necessitada de assessoramento espiritual!

Como a Tropicália, de Festival em Festival…

29 maio

A banda espanhola Marlango abre o festival para desespero de nossos pés cansados...

Mal nos recuperados do bicentenário e a cidade já está nos chamando. Muitos de nós ainda estão enfiados nos escalda-pés, sem voz, com tosse, rouquidão, dor nas costas e outras efeitos colaterais da alegria que tomou conta da gente no fim de semana passado por conta do Bicentenário Argentino.

Mas, como Nova Iorque, Buenos Aires também é a cidade que não dorme. E, pior, que não deixa os outros dormirem! Esta entidade enorme, ao qual nos submetemos como ovelhinhas para abate, nos arrasta por ai com seus braços de concreto , nos envolvendo com sua doce melodia de decadence avec elegance e não nos deixa descansar, procrastinar, parar…

Os dias são tão intensos que há semanas, que ao final, minha energia acaba por completo, sem restar nada, um resquício para lavar a louça, fazer o café ou ler um livro. São momentos de exaustão extasiada tão intensos que, às vezes, uma noite bem dormida passa longe do suficiente. É preciso uma noite, um dia, outra noite. É necessário absorver como um desses computadores da Matrix uma quantidade enorme de emoções, informações, acontecimentos, pensamentos e novas construções. E como a tropicália vivemos de festival em festival.

Com uma Fênix nascida dos excessos do Bicentenário ressurgimos das cinzas para o próximo happening da capital. O Festival Ciudad Emergente, que começa no próximo dia 02 de junho, vem com uma série de surpresas e atrações que não conhecemos mas que, ao final, vão acabar morando no nosso Ipod.

A primeira atração traz a balada atriz espanhola, namorada do meu queridinho Jorge Drexler, Leonor Waitling, e sua banda Marlango ao Centro Cultural da Recoleta, no próximo dia 02 de junho. Com acordes leves, um pouco de jazz , indie, rock e folk, o grupo espanhol  é um bálsamo melódico para os ouvidos cansados do Bicentenário.  As canções entoadas nas pontas dos pés, em inglês, e algumas poucas em castelhano, seus pianos chuvosos, bateria discreta e acordes gotejantes são ligeiras, leves e agradáveis.  Abertura as 19h, fica a cargo do projeto alternativo Les Mentettes Orquestra.

No dia seguinte, é a vez do banda local Nairobi num dueto com o músico da Guiana Mad Professor que já mixou  pesos pesados como Massive Attack, Sade, the Orb, the KLF, Beastie Boys, Jamiroquai, Rancid e Depeche Mode.  O show começa às 21h, mas é precedido por um monte de atrações  interessantes.  Além dos inúmeros shows, de gente que ainda estou conhecendo, escutando e me inteirando, postando aqui na medida do possível, há ainda muita dança de rua ( pretendo não perder a homenagem a Michael Jackson), exibição de documentários ( tem pelo menos uns dois obre o The Smiths que eu quero ir), leitura de poesias ( ando pulando estes programas) e exposições de arte urbana, entre outras cositas mais.  

Lá vamos nós outra vez!

Cofinra a programaçao completa AQUI!

Comi Mosca Liniers!

28 maio

Ontem, por volta de umas sete da noite, me dei conta que havia esquecido do avant premiere do documentário El Trazo simple de las Cosas sobre o Liniers que eu queria tanto tanto tanto ir. Fiquei histérica dando ataque que nem travesti de BR em casa quando vi que esqueci de passar na produtora Ojo Cine para comprar os ingressos. Aqui do lado a produtora!  Enfim, dia 03 de junho estréia nos cinemas.

Eu vou, sem ganhar de brinde meu livro Macanudo, nem ver Liniers, sem tietar. Fazer o que se a pessoa comemora mais que os Argentinos o bicentenário e depois tem que correr atrás da vida numa quarta-feira de cinzas.

Estou escrevendo agorinha mesmo um recado enorme para mim mesma que vai ficar grudado na geladeira em letras garrafais: “MACANUDA, DIA 03 VAI VER O LINIERS!”. Senao capaz que eu coma mosca denovo!

Restaurantes em Buenos Aires: 15 chatices

28 maio

 

Comer fora em Buenos Aires é ótimo. Não me entendam mal. A capital está recheada de restaurantes maravilhosos, repleta de opções, para todos os gostos, alguns imperdíveis, outros clássicos, enfim a cidade é um pólo gastronômico.  Mas, alguns hábitos adotados pelos estabelecimentos portenhos podem surpreender  negativamente muita gente. Hoje, o descolado site Planeta Joy publicou uma materinha muito legal sobre 15 chatices, ou encheções de saco, de comer fora aqui.

Entre as pentelhacoes mais comuns estão algumas desconhecidas pelos brasileiros como a cobrança de “cubiertos”.  Você já imaginou ser cobrado á parte pelos talheres e pratos que usa para comer? Surreal não? Não na Argentina. Muitos restaurantes cobram pelo uso da louça, pelas tolhas de mesas e outras coisas que sabe se lá o que. Este valor varia. Pessoalmente já vi cobrarem quase cinco reais por pessoa. Literalmente uma facada! É meio que o fatorzinho surpresa na conta. Cobrarão ou não cubiertos? Uuuuuuuuu….

Outro despautério: ser cobrado porque tem pouca fome e prefere dividir um prato. Juro taxa extra. Já me aconteceu várias vezes. Tem restaurante que estipula um prato por pessoa. Se não : multa! Eu me sinto onerada quando estou de dieta!

Pergunta: Nao estao te chamando na cozinha nao?

Mais uma irritação, entre as quinze que cita o site, é a mania horrorosa de omitir a conta. Explico: você pede a continha e camarada vem com a cara mais lavada e diz “ é tanto”. Cadê a notinha descriminando tudo camarada???? Um porre.  E o pior, fica do lado da mesa esperando você contar o dinheiro. Ei, não tão te chamando lá na cozinha não amigão?

Outra que pega muitos brasileiros em férias na capital de surpresa é quando não se pode escolher uma mesa. Eles escolhem para você. Às vezes, tão perto de outra mesa que pode escutar as mastigada do seu vizinho. Ai gente, capitalismo selvagem! Você está em dois e a mesinha simpática perto da janela num restaurante vazio é de quatro? Esqueça. Sei bye bye!!! Aqui casais sentam na mini mesa, aquela que faz com que sua manga da camisa fique passando perigosamente por cima do molho de tomate!

Uma sacada muito legal do site é também o momento breguerrímo em que chega o garçom com a garrafa de vinho mais barato do cardápio e espera aquela sua degustada a La sommelier para que sejam servidos as outras taças. Adorei, alguém tinha que se tocar disso.

Mas, acho que faltou um item: os garçons de Buenos Aires. Tudo bem que o site já tinha feito uma excelente matéria sobre a substituição de garçons argentinos por camareros de outras nacionalidades pelo simples fatos de que os daqui são intragáveis. Olha, isso não é uma declaração xenófoba, eu não sou daquelas que sai falando mal dos hermanos. De maneira geral, acho que são gente como a gente. Mas, os atendentes portenhos são geneticamente modificados para o mal! E, aparentemente, a gentileza é cobrada a parte.

Às vezes tenho a impressão que se pode comer tudo que se possa pedir em dez segundos. “Quero bife de chorizo bem passado, coca cola, batata frita…ai ele já foi!!!!”. Vamos dar o desconto porque aqui, graças os porcos chauvinistas proprietários dos restaurantes, há um número infinitamente inferior de garçons em relação ao número de mesas.  

Porém, ei o que te custa escutar meu pedido inteiro se você vai ter voltar para o pedido completo anyways!!!!Que me perdoem aquelas raras figurinhas simpáticas, como o garçom do Coreano Bi Won, Domingo Choque, que te atendem como se estivessem servindo ao Papa, mas o serviço na capital anda malíssimo! A boa notícia é que no site Guia Óleo você pode desabafar todas suas mágoas antes que elas virem câncer.

Confia a matéria do Planeta Joy AQUI.

Bicentenário : Kaya en la Gandáia

27 maio

 

Enquanto os argentinos comemoram os duzentos anos da Revolução de Maio, os maconheiros do país comemoram, segundo a revista THC, a revolução de dois séculos de plantio. Embora, sinceramente, lendo os artigos, não veja esta relação, já  tinha notado a nada discreta presença da revista nas bancas. Hoje, um amigo me trouxe a ediçao de maio e eu me deliciei com a leitura da revista da “cultura canábica” daqui. Bem escrita, sem perder o caráter panfletário, de fácil leitura, com toques apaixonados e irônicos, a publicação é até razoável literatura.

 A edição de maio traz uma matéria patriótica do plantio de marijuana de norte a sul de Córdoba, Missiones, Chubut, Tucuman,  á  costa atlântica, Bariloche, á  terra do fogo com relatos “heróicos” de como cada um desses personagens conseguiu vencer as adversidades para manter sua plantação. A idéia da matéria é mostrar que a Argentina é um excelente campo para plantar maconha com mapinha ilustrativo das melhores áreas, daquelas livres de pragas, fungos e ventos extremos. Um must!

A Revista THC traz matérias sobre a cultura canábica dos hermanos

 
 

Marcha 08 de maio

Seguindo a onda mundial, na Praça de Maio, no ultimo dia oito, os hermanos organizaram  uma manifestação com mais de 12 mil pessoas (segundo o conservador diário Clárin foram apenas 3 mil) em prol da descriminalização do plantio. Em Córdoba, Neuquén, Rosario, Mar Del Plata, Mendoza, entre outras cidades argentinas, também se celebraram algumas manifestações mais tímidas.

 Além das matérias especiais, a revista traz ainda sessões seriíssimas de receitas ( que nesta edição cita uma batata recheada com manteiga de cannabis), bens cobiçadíssimos dos cabeções ( como a coluna Cosas de Fumados, que traz os dechavadores mais in do momento), uma sessão imperdível  e muy patriótica de leitores mostrando orgulhosamente suas plantações (Cogollos Argentinos), além de entrevistas e um perfil intitulado “Amigos da THC”.

O suplemento Plantate é a versão underground de da revista Casa e Jardim. É Casa e Jardim com um Twist!!!Coisa séria que traz até um Consultorio de Cultivo com um especialista tirando dúvida dos leitores a la Contardo Calligaris responde.

Durante as comemorações do Bicentanário, o cheirinho de maconha se misturou ao tradicional aroma de churrasco e eu já tinha notado que existem muitos adeptos da esquadrilha da fumaça por aqui.  Vamos combinar? Para onde você olhasse havia um baseadinho queimando na multidao.

Desde o ano passado, a maconha é descriminalizada no país

No dia 25 de Agosto do ano passado, a Suprema Corte Argentina descriminalizou por unanimidade  o uso de maconha em pequenas quantidades e sem ostentação no país com o argumento que adultos são capazes de tomar suas próprias decisões de acordo com o preceito de liberdades pessoais. Nao é mesmo?

Agora, usuários pedem uma reforma na lei de drogas .As reivindicações, entre outras, incluem a liberação do plantio para consumo próprio.

Mais uma atitude bacana de um povo, concorde ou não, que luta abertamente por seus direitos, como o de fumar seu baseadinho em paz sem alimentar o narcotráfico. Acho digno! Aqui é “piquete” para todo lado e com a maconha não seria diferente. 

Aproveitando a deixa, para quem curte, confesso que reggae não é exatamente minha praia, no dia 29 de maio, no estádio Malvinas Argentinas, se celebra a quarta edição do Bob Marley Day Fest com atrações nacionais e jamaicanas. Confira aqui.

Aposto que o perfume do festival será aquele cheirinho característico de marijuana…

Clandestina: Rebolation e a Cidade parte II ( a missão)

26 maio

Por razões antropológicas ( e antropológicas only!) este fim de semana rebolei mais uma vez em Buenos Aires. E, novamente, me deparei com os branquinhos de rastafári, o Jam jamaicano, o inferninho de Jah, em uma festa que um clássico na cidade: a itinerante Clandestina que dessa vez se celebrou no Club Groove, coincidentemente no muy upper class bairro de Palermo.  Novamente, o cenário não lembrava nem vagamente as clássicas milongas, nenhum rastro borgiano, nenhum bocadinho de Gardel.  

Os criativos panfletos da festa que é um clássico na capital

O pau comia no Black style mesmo, na africanidade, caribenho, latino, qualquer coisa que não fosse muito comportado não. Ate as sete da manha estivemos sacudindo o corpinho.

Vou confessar que houve um momento cumbia que foi desagradável. Um monte de ritmos desconhecidos embalados por rodinhas de adolescentes que cantavam letras que nunca ouvi  e se emaranhavam naquele confronto de porradinha que foi um desconfortável deja vu de uma adolescência que não fazia a menor questão de recordar.  

Flyers básciso da festenha

Mas, de maneira geral, nos divertimos tomando um espumante suspeito de 20 reais com enérgico (fato que desencadeou uma greve geral do meu organismo no dia seguinte), balançando o corpinho quando a musica nos permitia e curtindo as deliciosas performances de acrobacia, malabares e palhaços do grupo circense clowndestino que entremeavam a noite com um pouco de cultura que, alias, nunca falta em Buenos Aires. Fica o elogio.

O genial Clowndestino, un habitué nas festas Clandestinas

Grande pedida para aquele momento  “ cansei de ser classuda (o) em Buenos Aires e o que quero mesmo e requebrar ate o chão” .

Para se ligar no próximo rebolation da cidade fique ligado na programação aqui.

Argentina é força bruta

26 maio
 
 
 
 

Acrobatas do grupo Fuerza Bruta na Avenida Diagonal

“Viva La pátria, carajo!”. Assim o argentino Fito Paez começou o show de encerramento dos quatros largos dias de comemoração pelos duzentos anos da Revolução de Maio, que outorgou autonomia ao seu país. Três horas antes nos retorcíamos de emoção, com olhos marejados, pelos de todo corpo arrepiados, queixos caídos, palavras tragadas para dentro diante do espetáculo de proporções helênicas que cruzou a Avenida Diagonal vindo da Praça de Maio.

 O grupo Fuerza Bruta usou uma série de alegorias para contar a história do Bicentenário Argentino. Houve chuva de papel, espuma, penas, água, palha em um espetáculo que deixou extasiada a gente, asfixiado de emoção o público que, não cabendo nas calçadas trepava em prédios,  árvores, postes, bancas de revistas e andaimes. Para se ter uma idéia, dois milhões de pessoas assistiram ao desfile, segundo li, mais assistência do que o enterro de Evita.

Multidao em extase

Tradicionais taxis trazem dançarinos e músicosDos tradicionais taxis portenhos saltavam casais de bailarinos de tango movidos pela doçura dos acordeons que tocavam o emblemático clássico nacional “Volver”, numa cena tão delicada que fez latejar o coração da gente. No barco, que trouxe os imigrantes, acrobatas se penduravam num balé incrível tricotado nas alturas, enquanto a constituição argentina pegava fogo pendurada em um andaime.

Com carro que trouxe as madres de mayo, mulheres cujos filhos desapareceram na história, veio também o frio causado pela chuva que caia eternamente nas mães destituídas dos seus.

Chove e faz frio para as maes sem filhos

Os soldados derrotados nas Malvinas arrastavam seus corpos fracassados pela rua numa marcha lúgubre e desiluda. Enquanto isso, em outra alegoria, xamãs verdadeiros abençoavam o público. 

Homenagem aos mortos de Malvinas

Piqueteros de Perón

Os “piqueteros” de Perón lembravam uma época de aspirações comunistas distribuindo panfletos, entoando gritos de guerra e faixas de apoio ao general e sua mulher, Evita.  Até a bancarrota argentina esteve representada por uma alegoria que trazia acrobatas envolvidos em um vendaval de dinheiro, ora rasgando notas,ora atirando as células ao povo.Noalto do carro, as cotações do dólar não paravam, uma óbvia referencia ao desvalorização da moeda.  

Na representaçao do povo que cruzou os Andes chega a nevar na avenida

Nesses quatro dias de festa, estivemos recorrendo as ruas da cidade com nossa curiosidade brasileira, absorvidos pela energia que nos consumia, pés ardendo de percorrer largas distancias, corações acelerados com o descobrir de novas coisas e apaixonados pela latinidade que a cidade nos despertava. Submergidos de carona no despertar de uma nova era de outro povo, e entusiastas da felicidade alheia, chegamos a desejar o mesmo bem a uma pátria que não é nossa.

Soldados Vencidos

Questionamos nossas diferenças apenas para chegar à conclusão que não existem muitas. E que o futebol não é retórica coerente para nosso isolamento.  Concluímos que existem mais similaridades que distinções, mais amor que distorções.  E que, como disse Eduardo Galeano, somos o povo que desde a infância da história nos acostumamos a perder e que isso é mais um motivo para nossa coesão.  Nesse 25 de maio, vivendo aqui, me corrijo : não é happy birthday e sim parabéns Argentina!

Parabéns Argentina!